Dois números medem a mesma coisa por métodos que não conversam, e ninguém pode somá-los — mas eles são somados, todo dia, e o resultado virou o censo oficioso da inteligência artificial: 2,42 bilhões de usuários no mundo.
Fui refazer essa soma degrau por degrau, na fonte de quem a faz. Ela tem cinco degraus e um único dado publicado por quem tem o dado. Todo o resto é razão, painel de mercado ou pesquisa por telefone. O último degrau é a China — e é o que mais me interessava, porque a pauta deste artigo nasceu de um leitor que perguntou, embaixo do artigo anterior sobre os números de IA, onde estavam os chineses nessa conta.
A resposta curta: estão lá. A resposta longa é o artigo.
Nota metodológica. Refiz a cadeia de cálculo lendo o Digital 2026 Mid-Year Global Update Report da DataReportal e o 57º relatório estatístico do CNNIC — este último em PDF, em chinês, com o texto extraído e conferido linha a linha. As citações em inglês e em chinês vêm traduzidas ao lado. A aritmética de conferência é minha, feita em código, e está reproduzida no corpo: qualquer pessoa refaz com uma calculadora. Onde eu não verifiquei, está escrito que não verifiquei.
| O que se diz por aí | Veredito | O que a conferência mostrou |
|---|---|---|
| "As contagens globais de IA ignoram a China" | ❌ Falso | A DataReportal soma a China de propósito, cita o CNNIC pelo nome e dedica um parágrafo ao Grande Firewall antes de somar |
| "2,42 bilhões de pessoas usam IA" | ⚠️ Impreciso, e o autor avisa | O próprio relatório desaconselha ler a cifra como pessoas e pede o termo "usuários ativos" |
| "A China tem 602 milhões de usuários de IA" | ✅ Confirmado | 6,02 亿 no 57º relatório do CNNIC, base dezembro de 2025 — o dado mais recente que existe |
| "O ChatGPT já tem 1 bilhão de usuários semanais" | ❌ Falso | A OpenAI publica "mais de 900 milhões"; o 1 bilhão é projeção dela mesma, não cifra corrente |
| Os 42,8% chineses são a fatia dos internautas | ⚠️ Erro na explicação | São a fatia da população inteira. A conta da DataReportal usa a leitura certa; a frase que a explica, não — e a distância entre as duas leituras é de 120 milhões de pessoas |
| Os dois números podem ser somados | ⚠️ Só com ressalva | Um é alcance de seis meses por telefone; o outro é atividade semanal medida em servidor |
Como se conta uma multidão
Imagine uma praça cheia e três pessoas encarregadas de dizer quantas passaram por ali.
A primeira bate na porta das casas ao redor e pergunta: "o senhor esteve na praça nos últimos seis meses?". Anota o sim. É lento, é declarativo, depende da memória de quem responde — e alcança quem nunca deixou rastro nenhum, inclusive a criança de sete anos.
A segunda conta as catracas na entrada da praça. Ela sabe exatamente quantas voltas a roleta deu esta semana. Não sabe quantas pessoas são: quem entrou três vezes girou três vezes, e quem pulou o muro não girou nenhuma.
A terceira não conta nada. Ela pega o número da catraca, multiplica por uma razão que comprou de uma consultoria — "para cada pessoa que passa por semana, há 1,27 que passa por mês" — e anuncia um total.
Repare no quarto elo, o único marcado. O problema nunca é uma das três contagens: cada uma responde bem à sua própria pergunta. O problema é o momento em que os três resultados entram na mesma soma e saem dela com o mesmo nome — "usuários".
Essa soma existe, tem endereço, e é a origem do número que você já viu em apresentação de investidor.
A conta que produz os 2,42 bilhões
Quem faz a conta é a DataReportal, que publica há mais de uma década os relatórios Digital em parceria com a agência We Are Social — a fonte que praticamente todo slide sobre adoção digital cita, quase sempre sem abrir. Abri.
O relatório de meio de ano de 2026 explica a cadeia inteira, em público, num parágrafo que existe justamente para dar transparência. Traduzo os degraus na ordem:
- O ponto de partida é a única contagem publicada por quem tem o dado. "Our starting point is the latest, 900 million weekly active ChatGPT user figure published by OpenAI" ("nosso ponto de partida é a cifra mais recente, de 900 milhões de usuários semanais ativos do ChatGPT, publicada pela OpenAI").
- A razão que converte semana em mês vem de um painel comercial. "Similarweb's global App Intelligence data (...) stood at roughly 1.27" — a proporção entre usuários mensais e semanais era de cerca de 1,27 em fevereiro de 2026. Multiplicando: 1,15 bilhão de usuários mensais.
- A fatia que não usa ChatGPT sai de outro painel. Uma análise de tráfego web indicou que pouco mais de 63% dos visitantes de plataformas de IA só visitam o ChatGPT — logo, pouco menos de 37% dos usuários ativos usam outra coisa, o que dá 662 milhões.
- Somam-se os dois: 1,15 bilhão + 662 milhões = 1,81 bilhão.
- Por último, entra a China — com os 42,8% do CNNIC. "And that takes us to our global active GenAI user figure of 2.42 billion" ("e é isso que nos leva à nossa cifra global de 2,42 bilhões de usuários ativos de IA generativa").
Refiz a soma com os números que o próprio relatório imprime: 1,81 bilhão mais 602 milhões dá 2,412 bilhões — praticamente os 2,42 bilhões publicados, e a diferença é o arredondamento de cada degrau impresso. A conta fecha. Não há erro de aritmética aqui, e é importante dizer isso antes de qualquer crítica: o relatório é mais transparente que 99% do que se cita sobre IA, e termina o parágrafo pedindo, com todas as letras, que ninguém leia a cifra como 2,42 bilhões de pessoas.
O que não fecha não é a conta. É a ideia de que esses cinco degraus medem a mesma coisa.
O terceiro degrau não cabe no Gemini
Antes de chegar à China, vale parar no degrau 3 — os 662 milhões de usuários mensais que, segundo a cadeia, usam alguma IA generativa que não é o ChatGPT.
Em 22 de julho de 2026, na conversa de resultados do segundo trimestre da Alphabet, Sundar Pichai disse o seguinte, em uma frase:
"the Gemini app, which now has 950 million monthly active users, with daily active users tripling in the last year"
Em português: "o aplicativo Gemini, que agora tem 950 milhões de usuários mensais ativos, com os usuários diários triplicando no último ano."
Um só concorrente declara 950 milhões onde a cadeia inteira reserva 662 milhões para todo mundo que não abre o ChatGPT no mês. Os dois números são públicos, os dois são recentes.
A primeira explicação é a mais simples, e é a sobreposição: os 662 milhões não são "os usuários dos concorrentes". São os que usam só os concorrentes. Quem abre o Gemini e também o ChatGPT já está contado no 1,15 bilhão do degrau anterior — e a cadeia assume que a imensa maioria dos usuários do Gemini está nesse caso. Pode ser verdade. Mas note o que a premissa faz: transforma um concorrente de 950 milhões numa sobra de 662 milhões que ele divide com todos os outros.
A segunda explicação é a régua. "Usuário mensal do aplicativo Gemini" inclui gente que o Google conta por integração no Android e na busca, e que a medição de tráfego web usada pela cadeia simplesmente não vê. O próprio Pichai citou, na mesma fala, 1 bilhão de usuários mensais para o "AI Mode" da busca — que é ainda outra régua, ainda com o mesmo apelido.
E o contraste com a Anthropic fecha o quadro: não existe número oficial de usuários do Claude. Procurei, e o que circula (algo como 245 milhões) é estimativa de painel de terceiros, não declaração da empresa. Não entra neste texto. Com o Meta AI acontece o mesmo: a cifra de 1,2 bilhão que circula em agregadores não tem, até onde consegui verificar, declaração oficial correspondente — e por isso ela também não aparece aqui.
Guarde a assimetria, porque ela vai reaparecer na China: as réguas mais generosas são as das empresas que escolhem quando divulgar. A régua que tem erro amostral publicado é a da pesquisa telefônica.
O degrau chinês entra com outra régua — e a régua está publicada
O 57º Relatório Estatístico sobre o Desenvolvimento da Internet na China saiu em 5 de
fevereiro de 2026, com dados até dezembro de 2025. Ele é publicado pelo CNNIC, o centro de
informação da internet chinesa — o órgão que administra o domínio .cn. Conferi no índice
oficial em 4 de setembro de 2026: não existe edição mais nova. O 602 milhões é o dado
mais recente do Estado chinês sobre o assunto.
Baixei o PDF, extraí o texto e fui atrás da definição. Ela está na nota de rodapé 64:
指过去半年内,我国整体人口中使用过生成式人工智能产品或服务的比例为 42.8%。
Em português: "refere-se à proporção da população total do país que usou produto ou serviço de inteligência artificial generativa nos últimos seis meses: 42,8%."
E a definição de internauta, no glossário do mesmo relatório, fixa a idade:
网民:指过去半年内我国使用过互联网的 6 周岁及以上居民。
Em português: "internauta: residente de 6 anos ou mais que usou a internet nos últimos seis meses."
Junte as duas e você tem a régua chinesa inteira: usuário de IA é quem usou pelo menos uma vez em seis meses, a partir dos seis anos de idade. E o instrumento é o mais antigo que existe — o apêndice diz que a apuração é feita por CATI, sigla de computer-assisted telephone interviewing, entrevista telefônica assistida por computador. Duas listas de telefones, fixo e celular, 31 províncias da China continental, erro amostral máximo de 0,64 ponto percentual com 95% de confiança.
| A régua chinesa | O que ela é |
|---|---|
| Quem é contado | Residente de 6 anos ou mais |
| O que conta como uso | Uma vez nos últimos seis meses |
| Como se apura | Entrevista por telefone (CATI), duas listas amostrais |
| Cobertura | 31 províncias da China continental — sem Hong Kong, Macau e Taiwan |
| Erro declarado | 0,64 p.p., 95% de confiança |
| O que não existe | Nenhum recorte semanal, nenhum recorte mensal, nenhum dado por marca |
Repare que as três barras vêm da mesma pergunta, feita do mesmo jeito, com um intervalo de seis meses entre elas — 17,7% em dezembro de 2024, 36,5% em junho de 2025, 42,8% em dezembro de 2025. Isso importa mais do que parece: quando a régua não muda, o crescimento é crescimento de verdade. A China não passou de 17,7% a 42,8% porque alguém afrouxou a definição no meio do caminho. Passou porque, em doze meses, 353 milhões de pessoas a mais responderam "sim" à mesma pergunta.
Não há nada de errado com essa régua. Pelo contrário: ela é declarada, o erro amostral é publicado, e é o mesmo tipo de medição que a Europa e o Brasil usam. O que existe é uma incompatibilidade — e ela é explícita. A DataReportal soma a China dizendo "who use GenAI each month" ("que usam IA generativa a cada mês"). O CNNIC nunca mediu mês nenhum.
Um alcance de seis meses entrou, sem conversão, num total declarado como mensal.
Onde a explicação não fecha: 42,8% de quê?
Aqui está o achado que me fez reescrever o pitch deste artigo. O relatório soma a China com esta frase:
"we add the 42.8 percent of internet users within Mainland China who use GenAI each month"
Em português: "somamos os 42,8% dos usuários de internet da China continental que usam IA generativa a cada mês."
Mas os 42,8% do CNNIC não são dos usuários de internet. São da população. Está na nota de rodapé que traduzi acima: 我国整体人口 — "a população total do país". A China tinha, em dezembro de 2025, 1,125 bilhão de internautas. Aplicar 42,8% a eles dá outro número:
| Leitura | Conta | Resultado | Total global que ela produziria |
|---|---|---|---|
| A que a frase descreve | 42,8% × 1,125 bi de internautas | 482 milhões | 2,29 bilhões |
| A que o CNNIC mede | 42,8% × população | 602 milhões | 2,41 bilhões |
A segunda é a que fecha nos 2,42 bilhões publicados. Ou seja: a conta está certa e a explicação da conta está errada. Quem tentar refazer o número seguindo a descrição impressa chega a 2,29 bilhões e não entende por quê.
Repare que os quatro primeiros degraus são idênticos aos da figura anterior: o que muda são os dois últimos — o degrau chinês, de 602 para 482 milhões, e o total, de 2,42 para 2,29 bilhões. Uma ressalva de leitura: as barras são normalizadas dentro de cada figura, então compare os números da coluna da direita, nunca o comprimento de uma imagem contra a outra. A diferença entre as duas leituras é de 120 milhões de pessoas — mais que o dobro de todos os brasileiros que usam IA generativa.
Isso não é fraude nem erro de ordem de grandeza, e seria desonesto vender como tal. É uma frase que descreve mal a própria aritmética, num parágrafo escrito para dar transparência. Só que a frase é a parte que viaja: é ela que vai para o slide, para o relatório de consultoria e para o post de LinkedIn. A conta certa fica no PDF; a explicação errada é que circula.
E se você quiser a taxa chinesa na régua dos internautas — a que a frase promete —, ela existe e é maior: 602 milhões sobre 1,125 bilhão dá 53,5%. Pouco mais da metade dos internautas chineses usou IA generativa nos últimos seis meses.
Quem são os 602 milhões (não é quem você imagina)
O relatório do CNNIC não para no total. Ele traz o perfil, e o perfil desmonta o estereótipo do "chinês hipertecnológico programando com IA".
| Corte | O que o relatório diz |
|---|---|
| Faixa etária com mais usuários | 19 anos ou menos: 26,4% |
| Depois dela | 30-39 anos: 22,0% · 20-29 anos: 21,3% |
| 40 anos ou mais, somados | 30,3% — alta de 4,9 pontos em seis meses |
| Ocupação mais frequente | Estudante: 30,1% |
| Escolaridade | Superior ou tecnólogo: 38,6% |
| Finalidade mais comum | Responder perguntas: 76,0% |
| Finalidade menos comum da lista | Gerar ou tratar código: 10,8% |
Repare na barra do topo, a única em destaque: 26,4% é o maior grupo, não a maioria — e a diferença entre as duas palavras é exatamente o tipo de imprecisão que este artigo está conferindo. O que o dado autoriza dizer é isto: a maior fatia dos usuários de IA da China tem 19 anos ou menos, e a pesquisa começa aos 6 anos de idade.
Guarde esse detalhe, porque ele é a segunda incompatibilidade da soma: os termos de uso do ChatGPT exigem 13 anos. Nenhuma contagem de servidor ocidental inclui uma criança de sete anos. A pesquisa chinesa inclui — e deve incluir, porque é uma pesquisa de população, e crianças de sete anos são população.
Há ainda um número que raramente aparece junto do "602 milhões": o tempo. O mesmo relatório do CNNIC publica que o uso médio mensal por usuário de aplicativo nativo de IA é de 143,2 minutos — cerca de 4,8 minutos por dia. Vale a ressalva, porque ela é a própria lição do artigo: esse número não é dos 602 milhões. Ele vem de um painel de celulares da consultoria QuestMobile, citado pelo CNNIC na figura 44, e mede quem abre o aplicativo — não quem respondeu ao telefone. São populações diferentes, e somar as duas seria repetir o erro que estou descrevendo.
E há o dado que fecha a pergunta do leitor. Em outro relatório, o CNNIC mediu que mais de 90% dos usuários chineses escolhem primeiro um modelo nacional. Os 602 milhões não são invisíveis nas contagens ocidentais só porque o Grande Firewall bloqueia o ChatGPT. São invisíveis porque essas pessoas usam outros produtos — o buraco é de catálogo, não só de acesso.
A medição chinesa mais recente não é do Estado
Se o dado oficial para em dezembro de 2025, quem mede a China depois disso é uma empresa privada. A QuestMobile, a consultoria de dados de mercado que faz na China o papel que a Sensor Tower faz no Ocidente, publicou em 14 de julho de 2026 seu relatório semestral do mercado de aplicativos de IA:
| Aplicativo | Usuários mensais ativos | Data-base |
|---|---|---|
| Aplicativos nativos de IA (total, sem duplicar) | 499 milhões | maio de 2026 |
| Doubao (豆包, do ByteDance — o dono do TikTok) | 382 milhões | junho de 2026 |
| Qwen (通义千问, do Alibaba) | 167 milhões | junho de 2026 |
| DeepSeek (深度求索) | 129 milhões | junho de 2026 |
Duas ressalvas que o número exige, e que valem mais que ele:
- É painel comercial, não censo. A QuestMobile vende dashboards sobre esses mesmos aplicativos. O método — tamanho da amostra, critério de deduplicação, se conta mini-programa dentro do WeChat — não é publicado. Não há auditoria independente.
- A régua muda de novo. Aqui "usuário" é usuário mensal ativo de aplicativo: nem os seis meses do CNNIC, nem a semana da OpenAI. Um terceiro relógio.
Note o que acontece quando as duas medições chinesas se encontram: o CNNIC diz 602 milhões de pessoas (dezembro de 2025, por telefone); a QuestMobile diz 499 milhões de usuários mensais de aplicativo (maio de 2026, num painel cujo critério de deduplicação não é publicado — não dá para saber se a unidade é a pessoa, a conta ou o aparelho). Os dois números são chineses, são recentes e não se contradizem — porque não medem a mesma coisa. É a lição do artigo em escala doméstica.
O Brasil mede a IA do mesmo jeito que a China
Este é o degrau que nenhum ranking internacional tem, e é o que mais me interessa como brasileiro: a régua brasileira é prima da chinesa, não da americana.
A TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, divulgada em 9 de dezembro de 2025, mediu IA generativa pela primeira vez. É pesquisa domiciliar probabilística, presencial — e pergunta a pessoas, como o CNNIC:
| Dado (Brasil) | Valor |
|---|---|
| Usuários de internet (10 anos ou mais) que usam IA generativa | 32% ≈ 50 milhões |
| Classe A | 69% |
| Classes D e E | 16% |
| Ensino superior | 59% |
| Ensino fundamental | 17% |
| Finalidade "pessoal" | 84% dos que usaram |
| Estudantes que recorreram à IA para pesquisa ou trabalho acadêmico | 86% |
Repare que os dois blocos da figura estão separados de propósito, e que o bloco de baixo não tem porcentagem nenhuma. Não é possível calcular a "penetração" do ChatGPT sobre a população mundial com o número que a OpenAI publica: usuários semanais ativos não têm denominador humano conhecido. A separação visual é a tese.
E a desigualdade brasileira diz uma coisa que o número chinês também diria, se o CNNIC publicasse renda: 69% na classe A contra 16% nas classes D e E. Quatro vezes. A IA generativa chegou ao Brasil pela mesma porta por onde entrou todo o resto — e "50 milhões de brasileiros usam IA" é uma frase que esconde que a metade de baixo da pirâmide social quase não aparece nela.
O que eu faria com isso
É a cadeia da abertura, agora com os nomes certos. Nenhum elo precisou ser removido — só deixaram de se chamar todos de "usuário". Daí saem três hábitos que passei a aplicar:
- Pergunte "quantos de quê, em quanto tempo". Semanal, mensal, seis meses, "já usou alguma vez" — a resposta muda a manchete mais que o país. A Alemanha tem duas verdades pelo mesmo motivo: 58% pela associação setorial, 32,2% pelo Eurostat.
- Desconfie de qualquer soma entre pesquisa e servidor. Não porque uma seja pior — a pesquisa é frequentemente melhor —, mas porque a soma não converte nada. Se você precisa somar, declare o que fez, como a DataReportal declarou.
- Trate o número da China como o que ele é: bom e específico. É medição pública, com erro amostral declarado, mais recente que a maioria das ocidentais e feita por um método que o Brasil também usa. Ele só não responde à pergunta "quantos chineses usam IA nesta semana", porque ninguém mediu isso.
O último parágrafo do relatório da DataReportal já dizia o essencial, e vale repetir na íntegra, traduzido: "aconselhamos contra interpretar esta cifra como 2,42 bilhões de 'pessoas'". O aviso está lá. O que circula é o número sem ele.
Se você refizer a conta e chegar a outro valor, me mande — o parágrafo da DataReportal está
aberto no relatório de meio de ano, o PDF do CNNIC está no ar em cnnic.net.cn, e a nota de
rodapé é a de número 64. Atualizo e credito.
Fontes
- DataReportal — Digital 2026 Mid-Year Global Update Report (dados de abril de 2026; cadeia de cálculo dos 2,42 bilhões)
- CNNIC — 第57次《中国互联网络发展状况统计报告》 (57º Relatório Estatístico sobre o Desenvolvimento da Internet na China, 5 de fevereiro de 2026; PDF)
- CNNIC — 《生成式人工智能应用发展报告(2025)》 (Relatório de Desenvolvimento das Aplicações de IA Generativa, 18 de outubro de 2025)
- OpenAI — Scaling AI for everyone e OpenAI raises $122 billion (cifra de usuários semanais ativos do ChatGPT)
- Alphabet — Q2 2026 earnings call: Remarks from our CEO (22 de julho de 2026; usuários mensais do aplicativo Gemini e do AI Mode)
- QuestMobile — 2026年AI应用市场发展半年报 (relatório semestral do mercado de aplicativos de IA, 14 de julho de 2026)
- Cetic.br / CGI.br — TIC Domicílios 2025: 50 milhões de brasileiros já usam IA (9 de dezembro de 2025)
Verificado em 4 de setembro de 2026. A cadeia de cálculo foi lida no relatório de meio de
ano da DataReportal e refeita em código. Os números chineses foram lidos no PDF do 57º
relatório do CNNIC, com o texto extraído por pdftotext e as duas definições conferidas
verbatim no original em chinês. A cifra da OpenAI foi lida nas páginas da própria OpenAI. Os
dados brasileiros vieram do comunicado do Cetic.br sobre a TIC Domicílios 2025. A cifra do
Gemini foi lida na página da própria Alphabet. O que não verifiquei: não abri o PDF do
relatório setorial de IA generativa do CNNIC — os números dessa fonte vêm da página oficial
que o divulga; procurei e não encontrei número oficial de usuários do Claude nem
declaração primária do Meta AI para a cifra de 1,2 bilhão que circula, e por isso as duas
ficaram fora do texto; e não tenho acesso à metodologia da QuestMobile, que não é publicada.