Desde 2002, em toda eleição presidencial, a média das pesquisas finais do 1º turno deu ao candidato de direita menos votos do que ele teve nas urnas. Em 2026 foi igual: as 12 pesquisas finais puseram Flávio Bolsonaro abaixo dos 47,03% que ele recebeu. Mas no 2º turno esse padrão some: nos seis segundos turnos desde 2002, o erro da média das pesquisas foi pequeno e caiu ora para um lado, ora para o outro. É isso que muda a leitura de domingo, 25 de outubro.
Juntando as 38 rodadas de 17 institutos registradas no TSE e divulgadas até 23 de outubro, Flávio tem 51,0% dos votos válidos contra 49,0% de Lula. Calibrando com o tamanho real dos erros nesses segundos turnos, isso dá a Flávio 77% de chance de vencer. É favoritismo, não certeza: em pelo menos um cenário razoável a chance cai para 55%, e uma eleição decidida por dois pontos cabe dentro do erro que as pesquisas já cometeram antes. E vale para os dois lados: os dados não sustentam nem "as pesquisas escondem a direita de novo" nem "agora vão inflar o Flávio para compensar".
Em 30 segundos.
- O centro das pesquisas dá Flávio com 51,0% e Lula com 49,0%. Só uma rodada (Vox Brasil, 49,4% para Flávio) põe Lula à frente.
- No 1º turno, as pesquisas subestimam o candidato de direita há seis eleições seguidas. No 2º turno, não: ali o erro é pequeno e não tem lado.
- Acertar numa eleição prevê pouco o acerto na seguinte. Ranking de instituto é retrato do passado, não garantia.
- Alguns institutos erram sistematicamente para o mesmo lado, mas nenhum padrão é forte o bastante para ser chamado de prova, e o padrão antigo não previu 2026.
- Todas as previsões abaixo estão registradas antes do resultado, para conferência pública na segunda-feira.
- Dados, código e versão técnica são públicos: repositório pesquisas-eleitorais-2026 no GitHub. Todo número deste texto sai de lá.
O retrato de hoje: 51 a 49, com um empate dentro do erro
A forma mais robusta de juntar pesquisas de institutos diferentes é a mediana da rodada mais recente de cada um: ela não deixa um instituto que publica toda semana pesar mais que outro, e um número extremo não arrasta o centro. Por esse critério, Flávio tem 51,0%. A média dá o mesmo (51,0%). A distância entre o instituto mais favorável a Flávio e o mais favorável a Lula é de 3,2 pontos.
Rodada mais recente de cada instituto até 23/10 (votos válidos; quando o instituto divulgou só votos totais, o válido é calculado dividindo cada candidato pela soma dos dois). Contratante, campo, entrevistas, confiança e registro: dado aberto do TSE.
| Instituto | Contratante (registro TSE) | Campo | Entrevistas | Margem | Confiança | Registro | Flávio | Lula |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Gerp | Gerp Mercadologia Ltda | 17/10 a 20/10 | 2.400 | ±2,0 pp | 95,55% | BR-03835/2026 | 52,6% | 47,4% |
| Real Time Big Data | Real Time Midia Ltda | 19/10 a 22/10 | 2.000 | ±2,0 pp | 95% | BR-09670/2026 | 52,1% | 47,9% |
| DataTrends | Instituto Datatrends Ltda | 19/10 a 21/10 | 2.000 | ±2,19 pp | 95% | BR-03365/2026 | 52,1% | 47,9% |
| Indexa | Agencia Estado S.A / Agencia Estado | 13/10 a 14/10 | 2.000 | ±2,2 pp | 95% | BR-04629/2026 | 51,2% | 48,8% |
| AtlasIntel | Atlasintel Tecnologia De Dados Ltda | 13/10 a 18/10 | 5.000 | ±1,0 pp | 95% | BR-02418/2026 | 51,1% | 48,9% |
| Futura | Futura Consultoria E Assessoria Ltda / Futura | 19/10 a 20/10 | 2.000 | ±2,2 pp | 95% | BR-06614/2026 | 51,1% | 48,9% |
| Ideia | Canal Meio S.A. | 15/10 a 19/10 | 1.500 | ±2,5 pp | 95% | BR-08251/2026 | 51,1% | 48,9% |
| Palver | Palver Consultoria E Desenvolvimento Tecnologico Ltda. | 16/10 a 20/10 | 5.000 | ±2,4 pp | 95% | BR-04612/2026 | 51,0% | 49,0% |
| PoderData | Poderdata Pesquisa, Jornalismo E Comunicacao Ltda | 19/10 a 21/10 | 4.000 | ±1,6 pp | 95% | BR-07926/2026 | 51,0% | 49,0% |
| Instituto França | Instituto Franca De Pesquisas Ltda | 16/10 a 20/10 | 3.000 | ±1,8 pp | 95% | BR-07896/2026 | 50,8% | 49,2% |
| Veritá | Instituto Verita Ltda | 15/10 a 19/10 | 15.554 | ±1,0 pp | 95% | BR-06396/2026 | 50,8% | 49,2% |
| Quaest | Editora Globo S/A / Editora Globo; Globo Comunicacao E Participacoes S/A / Tv/Rede/Globo.Com/Canais Globo/Globoplay/Eletromidia | 17/10 a 20/10 | 2.154 | ±2,0 pp | 95% | BR-08535/2026 | 50,6% | 49,4% |
| Datafolha | Empresa Folha Da Manha S.A.; Globo Comunicacao E Participacoes S/A / Tv/Rede/Globo.Com/Canais Globo/Globoplay/Eletromidia | 20/10 a 22/10 | 2.520 | ±2,0 pp | 95% | BR-09709/2026 | 50,5% | 49,5% |
| Ipespe | Ipespe Inst De Pesquisas Sociais Politicas E Economicas | 20/10 a 22/10 | 1.500 | ±2,6 pp | 95,45% | BR-04350/2026 | 50,5% | 49,5% |
| MDA | Confederacao Nacional Do Transporte | 13/10 a 15/10 | 2.002 | ±2,2 pp | 95% | BR-00652/2026 | 50,5% | 49,5% |
| Nexus | Banco Btg Pactual S.A. | 16/10 a 18/10 | 2.000 | ±2,0 pp | 95% | BR-04499/2026 | 50,3% | 49,7% |
| Vox Brasil | Instituto Vox Brasil Opiniao E Pesquisas Ltda | 20/10 a 22/10 | 2.100 | ±2,15 pp | 95% | BR-03259/2026 | 49,4% | 50,6% |
Nomes de parceiros de divulgação (Bloomberg, Aya, BTG, CNT, Meio, Broadcast, Abrapel, 100% Cidades) aparecem só quando são contratantes no registro do TSE.
Uma rodada ficou fora da conta. A da Alfa Inteligência foi divulgada com um número de registro que, no TSE, corresponde a outra amostra (1.200 entrevistas contra as 2.700 informadas), e não dá para saber a qual registro o resultado pertence. Pesquisa com registro duvidoso não entra.
A tendência. Nas duas primeiras semanas de outubro, Flávio caiu: os institutos que publicaram várias rodadas mostram recuo de 52-53% para perto de 51%. Daí em diante a leitura depende do recorte: em três de quatro recortes ainda há queda leve, e só a partir de 15 de outubro o quadro está plano. Isso importa porque decide o que "o centro" quer dizer no domingo; os cenários mais abaixo tratam as duas leituras.
O erro que todo mundo viu: o 1º turno subestimou Flávio
No 1º turno de 4 de outubro, Flávio teve 47,03% dos votos válidos. Todas as 12 pesquisas finais o puseram abaixo disso, dez delas por mais de meio ponto. Com Lula foi diferente: 5 institutos o subestimaram, 4 o superestimaram e 3 acertaram. A frase correta, portanto, é "as pesquisas subestimaram Flávio", não "as pesquisas inflaram Lula".
Pesquisa final de cada instituto no 1º turno (votos válidos; resultado do TSE: Flávio 47,03%, Lula 45,16%). "Erro na margem" é a diferença entre a vantagem de Flávio na pesquisa e nas urnas (+1,87): negativo subestimou Flávio. Ordem: do menor ao maior erro.
| Instituto | Contratante (registro TSE) | Campo | Entrevistas | Margem | Confiança | Registro | Flávio | Lula | Erro na margem |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Veritá | Instituto Verita Ltda | 26/09 a 02/10 | 40.500 | ±1 pp | 95% | BR-04522/2026 | 47,0% | 45,2% | −0,1 |
| Gerp | Gerp Mercadologia Ltda | 30/09 a 02/10 | 2.400 | ±2,04 pp | 95,55% | BR-00509/2026 | 46,0% | 44,0% | +0,1 |
| Futura | Futura Consultoria E Assessoria Ltda / Futura | 29/09 a 03/10 | 2.000 | ±2,2 pp | 95% | BR-02431/2026 | 44,8% | 42,6% | +0,3 |
| Palver | Palver Consultoria E Desenvolvimento Tecnologico Ltda. | 30/09 a 03/10 | 5.000 | ±4 pp | 95% | BR-00198/2026 | 47,0% | 43,0% | +2,1 |
| Quaest | Globo Comunicacao E Participacoes S/A / Tv/Rede/Globo.Com/Canais Globo/Globoplay/Eletromidia; Editora Globo S/A / Editora Globo | 02/10 a 03/10 | 3.702 | ±2 pp | 95% | BR-02197/2026 | 45,0% | 46,0% | −2,9 |
| PoderData | Poderdata Pesquisa, Jornalismo E Comunicacao Ltda | 30/09 a 02/10 | 4.000 | ±2 pp | 95% | BR-03519/2026 | 43,0% | 45,0% | −3,9 |
| AtlasIntel | Atlasintel Tecnologia De Dados Ltda | 27/09 a 02/10 | 5.000 | ±1,0 pp | 95% | BR-00999/2026 | 44,1% | 47,0% | −4,8 |
| Datafolha | Empresa Folha Da Manha S.A.; Globo Comunicacao E Participacoes S/A / Tv/Rede/Globo.Com/Canais Globo/Globoplay/Eletromidia | 03/10 a 03/10 | 4.006 | ±2 pp | 95% | BR-01708/2026 | 42,0% | 45,0% | −4,9 |
| Instituto França | Instituto Franca De Pesquisas Ltda | 28/09 a 02/10 | 2.000 | ±2,2 pp | 95% | BR-02928/2026 | 40,5% | 43,9% | −5,3 |
| Nexus | Banco Btg Pactual S.A. | 25/09 a 27/09 | 2.000 | ±2 pp | 95% | BR-07557/2026 | 39,0% | 44,0% | −6,9 |
| Real Time Big Data | Real Time Midia Ltda | 26/09 a 30/09 | 2.000 | ±2 pp | 95% | BR-09503/2026 | 41,0% | 46,0% | −6,9 |
| MDA | Confederacao Nacional Do Transporte | 29/09 a 02/10 | 2.002 | ±2,2 pp | 95% | BR-04756/2026 | 42,1% | 47,8% | −7,6 |
Notas de origem: Gerp e Nexus pelos válidos que os próprios institutos publicaram; Instituto França recalculado dos totais (o instituto não publica válidos); Palver não divulga válidos, e os percentuais são os publicados; os decimais da Veritá vêm da compilação do Times Brasil/CNBC, e o instituto divulgou 47 e 45 inteiros.
Uma parte desse erro é movimento real de última hora. Os mesmos institutos que publicaram rodadas em 28 de setembro e em 3 de outubro erraram menos na segunda: houve eleitor que decidiu (ou mudou) no fim, como já se mediu para 2022 (Pereira e Nunes, 2024). A outra parte é erro de verdade, e ela tem história.
37 anos de dados: o 1º turno erra para um lado, o 2º turno não
Juntamos a última pesquisa de cada instituto em todas as eleições presidenciais desde 1989 e comparamos com o resultado do TSE. O gráfico mostra o erro da média das pesquisas finais (campo encerrado até sete dias antes) na fatia do candidato de direita ou do PSDB. Negativo quer dizer que as pesquisas deram a ele menos do que as urnas.
Duas coisas saltam:
- No 1º turno, a direita é subestimada em todas as seis eleições de 2002 a 2022, três vezes por mais de cinco pontos. (Antes de 2002 há só um instituto por eleição; em 1994 e 1998, anos de Fernando Henrique Cardoso, o erro foi para o outro lado.)
- No 2º turno o erro encolhe e perde a direção. A média dos seis erros é −0,3 ponto, com margem de incerteza de ±0,5: estatisticamente, zero. O erro típico, medido pela raiz do erro quadrático médio, é de 1,25 ponto.
Por que o 2º turno erra menos? Há menos candidatos para medir, menos voto útil de última hora, e os institutos passam a conferir a amostra pelo voto que as pessoas declaram ter dado no 1º turno, o que corrige parte do desvio. A consequência para domingo é direta: o erro do 1º turno de 2026 não autoriza supor que o 2º turno vai errar do mesmo jeito. Na série histórica, o tamanho do erro do 1º turno e o do 2º turno na mesma eleição andam até em sentidos contrários (correlação de −0,61, com seis eleições, o que é pouco para cravar).
Quem acerta e quem erra
Medir acerto de instituto é mais difícil do que parece, porque uma eleição só não separa competência de sorte. Usamos três regras: comparar cada instituto com os rivais na mesma eleição (eleição difícil não pune um só), separar 1º e 2º turno (o 1º turno erra duas vezes mais e puniria quem aparece mais nele) e só ranquear quem tem histórico.
No 2º turno presidencial, Datafolha, Ibope/Ipec e MDA são os mais precisos, e também os que mais vezes erraram menos que os rivais do mesmo ano. Ibope e Ipec aparecem juntos porque o Ipec foi fundado em 2021 pela equipe do Ibope Inteligência; o mesmo vale para DataPoder360 e PoderData. Na base mais larga, com 4.974 pesquisas finais para presidente, governador e prefeito de 2012 a 2022 (os dados abertos do Pindograma), quem mais errou menos que os rivais foram Instituto Amostragem, Futura e AtlasIntel, seguidos de Serpes, Ibope/Ipec e Datafolha; Vox Populi, Consult Pesquisa, Ipespe e Veritá erraram mais.
O ranking muda conforme o critério, e isso é uma propriedade do problema, não um defeito da conta. Mais importante: testamos se acertar antes prevê acertar depois. Na margem entre os dois primeiros, que é o que decide um 2º turno, a resposta é quase não: a ordem dos institutos de um período para o seguinte se repete com correlação entre 0,06 e 0,38, abaixo do limiar de significância em todos os cortes. No erro médio por candidato a repetição é maior (até 0,70), mas cai para 0,20 no corte mais recente. Por isso este texto não pondera o 2º turno pelo ranking do 1º.
Errar sempre para o mesmo lado
Esta é a pergunta que mais circula: algum instituto erra sistematicamente a favor de um candidato? Para responder sem cair na anedota, medimos, em 1.517 pesquisas de 2012 a 2022 em que o PT estava entre os dois primeiros, quanto cada instituto deu ao PT a mais ou a menos que os rivais na mesma disputa, e em quantos ciclos eleitorais ele ficou do mesmo lado.
Erro sistemático numa direção não indica intenção, contratação nem fraude. Ele tem causas técnicas conhecidas: como a amostra é sorteada, como é ponderada, se a entrevista é presencial, por telefone ou pela internet, quem aceita responder. Este texto mede o erro; não atribui motivo a ninguém.
O que dá para afirmar:
- Veritá e Paraná Pesquisas ficaram abaixo dos rivais na fatia do PT em todos os ciclos em que aparecem (5 de 5 e 4 de 4). É o padrão mais consistente da base, mas com tão poucos ciclos a chance de acaso ainda é de 6% e 12%: sugestivo, não conclusivo.
- Na série presidencial, Ibope/Ipec subestimou o candidato de direita em todos os cinco 1º turnos em que tem pesquisa final a até sete dias da eleição. Mas todo o mercado errou nessa direção nesses anos; o próprio instituto ficou perto da média dos rivais.
- O erro direcional da AtlasIntel não se sustenta: foi contra o PT em 2020 e a favor em 2022. Quaest e outros têm poucos ciclos para qualquer conclusão.
- Contamos mais de vinte comparações desse tipo; com tantas, algum padrão "forte" apareceria só por acaso. Nenhum sobrevive a essa correção.
E o padrão antigo previu 2026? Não. A ordem dos institutos pelo erro direcional histórico quase não tem relação com o erro de cada um no 1º turno de 2026 (correlação de 0,18) nem com o viés de cada um no 2º turno (de −0,25). O caso mais claro é a Veritá: historicamente a mais distante do PT, acertou o 1º turno de 2026 quase na casa decimal e hoje está levemente do lado de Lula em relação aos rivais. A leitura compatível com os dados é que instituto que erra recalibra. O histórico descreve o instituto que ele foi, não necessariamente o que ele é.
Uma nota de nome: a Vox Brasil, única rodada de 2026 com Lula à frente, não é o Vox Populi da série histórica. São empresas diferentes, e o histórico de uma não se transfere à outra.
Cenários para domingo
A chance de Flávio depende de duas escolhas: qual é o centro e quanto as pesquisas podem errar. O erro vem da história: 1,25 ponto, o erro típico da média das pesquisas finais nos segundos turnos de 2002 a 2022. Como seis eleições são pouco para medir isso com precisão, a conta usa uma distribuição com caudas mais largas que a normal (t de Student), o que deixa espaço para surpresa.
O que cada cenário quer dizer:
| Cenário | O que supõe | Centro | Chance de Flávio |
|---|---|---|---|
| Central | a mediana de todos os institutos | 51,0% | 77% |
| Só quem tem histórico | só os 8 institutos com 20 ou mais pesquisas finais em 2012-2022 | 50,7% | 69% |
| Os mais precisos | só os 4 institutos que erraram menos que os rivais em 2012-2022 | 50,8% | 73% |
| Sem os mais altos | tira as 3 rodadas mais favoráveis a Flávio | 50,8% | 72% |
| Erro maior | erro calibrado com pesquisas de até 14 dias | 51,0% | 75% |
| Estável | o quadro está parado desde 15/10 | 51,1% | 79% |
| Queda continua | o recuo de Flávio do início de outubro seguiu até domingo | 50,2% | 55% |
A leitura honesta: em quase todo cenário razoável Flávio é favorito, com chance entre 69% e 79%. O único que o aproxima de um cara ou coroa é o da queda contínua desde o início de outubro. Os recortes mais recentes mostram uma queda bem mais lenta, ou nenhuma, mas não dá para descartar que ela continue. Ainda assim, uma chance em quatro de Lula vencer não é pequena: é a chance de tirar o número 1 num dado de quatro faces.
E um cenário que não entrou: "as pesquisas vão errar contra Flávio de novo, como no 1º turno". Ele levaria a chance a 97%, mas não tem apoio na história dos segundos turnos mostrada acima.
A transferência de votos não muda o quadro. Somando aos votos do 1º turno a parte dos eleitores de Cury, Renan Santos, Caiado e Zema que diz migrar para cada lado, Flávio chegaria a 51,5% (taxas da Quaest) ou 52,1% (taxas da PoderData). Mas essas taxas saem das mesmas entrevistas que geram o 51%, e cada eleitor de candidato eliminado é medido com 50 a 65 entrevistas por instituto, com margem de mais ou menos 12 pontos. É uma conta de consistência, não uma segunda prova.
O que pode virar o jogo
- Comparecimento. Um em cada cinco eleitores (21%) não votou no 1º turno. As pesquisas medem mal quem vai ou não votar, e uma diferença de mobilização de um ou dois pontos entre os lados decide uma eleição a 51-49.
- Os últimos dias. O erro de 1,25 ponto foi medido com pesquisas da véspera. As rodadas de hoje têm de 3 a 11 dias, e calibrando com pesquisas de até 14 dias o erro sobe para 1,41 ponto. É provável que a incerteza real seja um pouco maior que a do cenário central.
- Erro comum a todos. Os institutos usam cadastros, ponderações e modos parecidos, e tendem a errar juntos. Por isso a média de 17 pesquisas não é 17 vezes mais precisa que uma: o erro que importa é o que todas compartilham.
Como vamos saber se acertamos
Previsão que não pode ser conferida não é previsão. Estas foram registradas em 23 de outubro, antes das rodadas finais e do resultado, com o código e os dados selados por SHA-256 no repositório público (arquivo das previsões registradas):
| # | Previsão | Como conferir |
|---|---|---|
| 1 | Flávio vence com probabilidade 0,77 | escore de Brier: 0,052 se Flávio vencer, 0,595 se perder |
| 2 | Flávio termina entre 49,2% e 52,8% dos válidos (80% de confiança) e entre 47,9% e 54,1% (95%) | resultado do TSE |
| 3 | A mediana das pesquisas erra menos que 1,25 ponto | resultado do TSE |
| 4 | Não haverá no 2º turno um erro contra Flávio do tamanho do 1º turno (1,9 pontos na disputa a dois) | resultado do TSE |
| 5 | A ordem dos institutos no 1º turno prevê pouco a ordem no 2º (correlação entre −0,2 e 0,4) | erro de cada instituto |
| 6 | A mediana dos institutos com 20 ou mais pesquisas na base histórica erra menos que a dos demais | erro de cada mediana |
| 7 | Os dois institutos mais afastados do centro (Gerp, a favor de Flávio, e Vox Brasil, a favor de Lula) erram mais que a mediana | erro de cada um |
Na segunda-feira este texto ganha uma atualização datada com o placar de cada previsão, acerte ou erre.
Como foi feito
- Dados. As 38 rodadas de 2026 foram conferidas no dado aberto de registro do TSE (arquivo gerado em 23/10 às 05:46): número de registro, contratante, período de campo, número de entrevistas, margem de erro e nível de confiança saem do registro oficial. A série presidencial 1989-2022 vem das pesquisas finais de cada instituto comparadas ao TSE; a base de 2012-2022 é a do Pindograma, refeita em código próprio.
- Medidas. As de sempre na literatura: erro médio por candidato e erro na margem (Mosteller e colegas, 1949), e a medida A de Martin, Traugott e Kennedy (2005). Nada aqui é métrica inventada para o caso.
- Natureza do texto. É uma estimativa própria a partir de pesquisas registradas, não uma pesquisa eleitoral; não há enquete nem consulta ao leitor. As rodadas citadas foram registradas até 17 de outubro e, pela regra de cinco dias da Resolução TSE nº 23.600/2019, já podiam ser divulgadas em 23 de outubro.
- Código, dados e versão técnica (com todas as tabelas, as ameaças à validade e a auditoria independente): repositório pesquisas-eleitorais-2026 no GitHub. Todo número deste texto sai dos scripts de lá.
Fontes
- Tribunal Superior Eleitoral: resultados do 1º turno de 2026 e dados abertos de pesquisas eleitorais 2026.
- Pindograma: ranking de institutos, código e dados.
- Martin, Traugott e Kennedy (2005), A review and proposal for a new measure of poll accuracy, Public Opinion Quarterly.
- Shirani-Mehr, Rothschild, Goel e Gelman (2018), Disentangling bias and variance in election polls, JASA.
- Jennings e Wlezien (2018), Election polling errors across time and space, Nature Human Behaviour.
- Pereira e Nunes (2024), Pesquisas eleitorais e mudanças tardias na decisão do voto, Opinião Pública.
- Meireles e Russo (2022), Pesquisas eleitorais no Brasil: tendências e desempenho, Estudos Avançados.
