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Artigos Publicado em 26 de agosto de 2026

Só 8 dos 20 números mais citados sobre a OpenAI são da OpenAI — o resto é vazamento, meta ou ninguém sabe de onde veio

Classifiquei os 20 números mais citados sobre a OpenAI: 8 são oficiais, 6 são reportagem, 3 são meta e 3 ninguém sabe de onde vieram. O 92% tem 31 meses. Fui à fonte de cada número que circula em compilados sobre a empresa: os da própria OpenAI conferem — e são os menos interessantes; o que dá manchete é o que ela nunca assinou. O "92% da Fortune 500" saiu da resposta da OpenAI ao processo do New York Times, em janeiro de 2024, e circula sem data; 24 bi de receita é oficial, 40 bi é estimativa, 280 bi é meta — juntar os três com o mesmo verbo está errado mesmo com cada número certo; a SoftBank investiu 64,6 bi, não "mais de 71", e os 500 bi do Stargate são compromisso de computação, não investimento. O "salário de US$ 76.001" de Altman é a soma de duas colunas do Form 990, o ano seguinte dá 113.674, e ele é o décimo de doze nomes em remuneração. No Brasil, o "50 milhões de usuários" aparece idêntico em agosto de 2025 e agosto de 2026 — as mensagens por dia subiram 54%.

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Só 8 dos 20 números mais citados sobre a OpenAI são da OpenAI — o resto é vazamento, meta ou ninguém sabe de onde veio

O número mais repetido sobre a OpenAI em 2026 — "92% das empresas da Fortune 500 usam nossos produtos" — tem 31 meses de idade e saiu de um post sobre um processo judicial. A frase está num texto de 8 de janeiro de 2024, a resposta da empresa à ação do New York Times; os compilados de estatísticas a penduram no anúncio de "1 milhão de clientes empresariais", de novembro de 2025, que não contém o número. Li os dois. A OpenAI nunca atualizou o percentual.

Fui atrás da procedência de cada estatística que circula sobre a empresa mais citada e menos documentada do setor. Classifiquei os 20 números centrais em quatro naturezas — oficial, reportagem, meta e órfão — e a régua reorganiza o assunto inteiro: só 8 são da OpenAI ou de registro público; 6 são apuração de imprensa; 3 são intenção; e 3 não têm origem localizável. O único documento auditado que existe sobre a empresa é um formulário de imposto da fundação original, e ele conta uma história que ninguém cita.

Nota metodológica. Cada número foi conferido contra a fonte original em 26 de agosto de 2026 — post oficial, comunicado de rodada, formulário Form 990 no IRS (via ProPublica), base EDGAR da SEC, página de preços — ou, quando a fonte é reportagem, contra a reportagem que o originou. O site da OpenAI recusa leitura automatizada (erro 403 em todas as páginas); o que vem de lá foi lido em cópia arquivada no Wayback Machine ou no navegador, e o texto diz qual. Três medições são minhas e reprodutíveis: os dois Form 990 da "OpenAI Inc" (FY2023 e FY2024), a busca por registros da empresa na SEC e o histórico da página de preços no Wayback. Usuários do ChatGPT ficam fora — já tratei deles aqui. Não há Reddit nem X; a discussão no Hacker News sobre esses números é rala e digo onde.


O placar: 20 números, quatro naturezas

O veredito antes do argumento, porque é o que circula sozinho. "O que circula" é a lista de números que compilados de estatísticas sobre a OpenAI repetem em 2026 — a página alemã que motivou esta pauta é o exemplar mais completo, com 76 afirmações numéricas. Peguei as 20 centrais. A coluna do meio é a régua.

O número que circulaNaturezaOnde está a evidência
Receita anualizada acima de US$ 20 bi em 2025✅ OficialCFO Sarah Friar, blog da OpenAI, 19-20/01/2026
US$ 2 bi por mês (≈ 24 bi/ano), março de 2026✅ OficialPost da OpenAI de 31/03/2026, lido no Wayback
US$ 122 bi captados a US$ 852 bi de valor✅ OficialMesmo post
Remuneração de Altman: US$ 76.001✅ OficialForm 990 FY2023 — é a soma de duas colunas, e o ano seguinte dá 113.674
Mais de 1 milhão de clientes empresariais✅ OficialPost de 05/11/2025
Stargate: US$ 500 bi✅ OficialAnúncio conjunto de 21/01/2025 (a página diz 2026)
Pedido de abertura de capital protocolado em sigilo✅ OficialPost da OpenAI, 08/06/2026
Altman tem 0% das ações✅ OficialDeclaração da OpenAI na reestruturação, reportada pela Reuters em 28/10/2025 ("OpenAI says CEO Altman will not get a stake")
Funcionários: ~4.500 -> 8.000 até o fim de 2026📰 ReportagemFinancial Times, 21/03/2026
Remuneração em ações: US$ 1,5 mi por funcionário; 46,2% da receita📰 ReportagemWall Street Journal, 18/02/2026 (a página atribui a outra fonte)
600 mil clientes do ChatGPT Enterprise📰 EstimativaNewsletter de fundo de venture capital; a OpenAI publica "7 milhões de assentos"
US$ 50 bi de computação em 2026📰 ReportagemGreg Brockman, sob juramento no processo Musk × OpenAI, 05/05/2026
Patrimônio de Altman: US$ 3,3 bi📰 EstimativaForbes — composição: Stripe, Reddit, Helion (não Worldcoin)
SoftBank investiu "mais de US$ 71 bi"📰 ErradoComunicado da própria SoftBank: US$ 64,6 bi, ~13%
Meta de receita 2026: US$ 29,4 bi🎯 MetaDocumentos internos via The Information: US$ 30 bi; a casa decimal não existe em fonte nenhuma
Meta de 2027: US$ 100 bi🎯 MetaAltman, em podcast: "How about '27?" ("Que tal 2027?")
Meta de 2030: US$ 280 bi🎯 MetaDocumentos internos via Bloomberg, 20/02/2026
2,2 bilhões de chamadas de API por dia❓ ÓrfãoA fonte citada não contém o número; nenhuma outra o tem
3.400 aplicativos de educação sobre a API❓ ÓrfãoIdem
48% de participação em robôs de atendimento❓ ÓrfãoIdem

Oito oficiais, seis de apuração, três metas, três órfãos. Repare no padrão: os números da própria OpenAI conferem — e são os menos interessantes. O que dá manchete (a meta, o vazamento, o "92%") é justamente o que a empresa nunca assinou.


A régua: quatro perguntas antes de repetir um número

Antes de acreditar em qualquer estatística sobre uma empresa fechada, uma pergunta separa o que o número prova do que ele só sugere: quem assinou? A figura é a régua inteira; o resto do artigo é a demonstração, número a número.

Diagrama em cadeia com quatro caixas. Primeira: oficial — a própria empresa assinou, ou é registro público; post da OpenAI, comunicado de rodada, Form 990 no IRS; verificável na fonte, com data. Segunda: reportagem ou estimativa — alguém de fora apurou; The Information, Bloomberg, WSJ, Sacra; vale o que vale a apuração. Terceira: meta — alguém disse que pretende; documento interno vazado ou frase em podcast; não aconteceu. Quarta, em destaque: órfão — ninguém sabe de onde veio; circula com fonte citada, mas a fonte não contém o número; não entra em texto nenhum.Quatro naturezas, quatro pesosToda estatística sobre uma empresa fechada cabe numa destas caixas — e só a primeira é conferível1. Oficial — a própria empresa assinou, ou é registro públicoPost da OpenAI, comunicado de rodada, Form 990 no IRS. Verificável na fonte, com data.2. Reportagem ou estimativa — alguém de fora apurouThe Information, Bloomberg, WSJ, Sacra. Vale o que vale a apuração; muda quando ela muda.3. Meta — alguém disse que pretendeDocumento interno vazado ou frase em podcast. Não aconteceu; é intenção com data.4. Órfão — ninguém sabe de onde veioCircula com fonte citada, mas a fonte não contém o número. Não entra em texto nenhum.Fonte: classificação do autor sobre os 20 números centrais da página alemã (23/08/2026). ulissesflores.com/openai

Repare que a régua não diz "oficial é verdade, o resto é mentira". Diz que cada caixa tem um peso: o oficial pode ser conferido na fonte, com data — e pode estar velho; a reportagem vale o que vale a apuração, e muda quando ela muda; a meta é intenção com prazo, não fato; e o órfão não tem peso nenhum, porque não há o que conferir. O erro dos compilados não é inventar número. É colocar as quatro caixas na mesma frase, com o mesmo verbo.

A página alemã é um bom caso justamente porque é melhor que a média: nomeia as fontes. O problema é o que sobra quando se puxa cada link.

Dois blocos de barras horizontais. Bloco 1, cinza: a página alemã tem 76 afirmações numéricas, 14 links externos e 7 fontes citadas só pelo nome. Bloco 2, azul: dos 14 links, 4 abrem e sustentam o número; 5 estão bloqueados a leitura automatizada mas um espelho confirma o número; 3 estão bloqueados sem espelho; 1 aponta só para a página inicial do site; e 1, em destaque, abre, é oficial e não sustenta o número.76 números em 14 links — e o único oficial que abre não traz o númeroA página alemã sobre a OpenAI, auditada link a link em 26/08/2026A PÁGINA ALEMÃ SOBRE A OPENAI (23/08/2026)Afirmações numéricas76Links externos14Fontes só nomeadas7OS 14 LINKS, CONFERIDOS UM A UMAbre e sustenta4Bloqueado, confirmado5Bloqueado; sem espelho3Só a home do site1Abre e NÃO sustenta1Fonte: hrefs extraídos da página no navegador (23/08/2026) e conferidos um a um em 26/08/2026. ulissesflores.com/openai

Repare na proporção do primeiro bloco: 76 afirmações, 14 links. Bloomberg, Reuters, The Information, Financial Times, Sacra e o próprio IRS aparecem citados pelo nome, sem link — 7 atribuições que o leitor não tem como puxar. E repare na última barra do segundo bloco: dos 14 links, os 4 que abrem sem bloqueio (três da TechCrunch, um da Anthropic) sustentam exatamente o número citado; os bloqueados são a Bloomberg, a CNBC e a própria OpenAI, que recusam leitura automatizada. O único link que abre, é fonte oficial e mesmo assim não contém o número que pendura é o do "1 milhão de clientes" — de onde saem o "92%", as "2,2 bilhões de chamadas" e os três órfãos. Não é link morto nem fonte fraca: é uma citação tecnicamente presente que não passa no teste mais básico, abrir e ler.


O "92%": um número de 2024 sobre um processo, reciclado sem data

O post oficial de 5 de novembro de 2025, "1 million business customers: the fastest-growing business platform in history" ("1 milhão de clientes empresariais: a plataforma de negócios que mais cresce na história"), diz o que diz — e só isso:

"Today, we're announcing that more than 1 million business customers around the world are directly using OpenAI [...]. We now have more than 7 million total ChatGPT for Work seats (up 40% in just 2 months). ChatGPT Enterprise seats specifically have grown 9x year-over-year."

Em português: "Hoje anunciamos que mais de 1 milhão de clientes empresariais no mundo usam a OpenAI diretamente [...]. Temos agora mais de 7 milhões de assentos do ChatGPT for Work (alta de 40% em só 2 meses). Os assentos do ChatGPT Enterprise, especificamente, cresceram 9 vezes em um ano."

Li o texto inteiro, não por busca de palavra. Não há "92%", não há "Fortune 500", não há "460 empresas", não há gráfico comparando a OpenAI com Google, Microsoft e Anthropic, não há "600.000" organizações, "2,2 bilhões" de chamadas, "3.400" aplicativos nem "48%" de participação — os seis números que a página alemã lista sob o rótulo único "Source: OpenAI, 1 Million Businesses", ao lado de um gráfico que ela mesma assina.

O "92%" existe. Está num post de 8 de janeiro de 2024, intitulado "OpenAI and journalism" ("OpenAI e jornalismo"), que é a resposta da empresa ao processo do New York Times por direitos autorais:

"Millions of developers and more than 92% of Fortune 500 are building on our products today."

Em português: "Milhões de desenvolvedores e mais de 92% da Fortune 500 constroem sobre nossos produtos hoje."

"Hoje" era janeiro de 2024 — treze meses depois do lançamento do ChatGPT, num parágrafo de defesa jurídica. A OpenAI nunca republicou o percentual atualizado; o anúncio de novembro de 2025, que seria o lugar natural para isso, não o menciona. Todo texto que diz "92% da Fortune 500" citando a OpenAI em 2026 está usando um número de 31 meses atrás, de outro assunto, sem dizer a data. É a natureza "oficial" com prazo de validade vencido — e é por isso que ela fica fora dos 20 da tabela: não é órfã, é fóssil.

Os três órfãos são caso diferente. Procurei "2,2 bilhões de chamadas de API por dia" em cinco buscas dirigidas e não achei nenhuma publicação da OpenAI, consultoria ou reportagem com o número. O que existe, oficialmente, é outra métrica em outra unidade — "Our APIs now process more than 15 billion tokens per minute" ("nossas APIs processam agora mais de 15 bilhões de tokens por minuto", tokens sendo os pedaços de texto que o modelo lê e produz), no post de março de 2026. "3.400 aplicativos de educação" e "48% dos robôs de atendimento em tempo real" não aparecem em lugar nenhum fora de compilados que citam uns aos outros. Número com fonte que não o contém não é impreciso: é inexistente até prova em contrário.

Barras horizontais em três blocos. Bloco 1, azul: 8 de 20 números são oficiais, da própria OpenAI ou de registro público auditado. Bloco 2, cinza: 6 são reportagem ou estimativa e 3 são meta declarada. Bloco 3, ouro: 3 são órfãos, sem procedência localizável.8 de 20: o que a OpenAI assinou é minoria do que circula sobre elaOs 20 números centrais da página alemã, classificados pela régua das quatro naturezasDA PRÓPRIA OPENAI, OU DE REGISTRO PÚBLICO AUDITADOOficial8 de 20DE FORA DA EMPRESAReportagem/estimativa6Meta declarada3SEM PROCEDÊNCIA LOCALIZÁVELÓrfão3Fonte: classificação do autor, cada número com o arquivo de evidência (apêndice do inventário, 26/08/2026). ulissesflores.com/openai

Repare que a barra azul é a maior e ainda assim é minoria. E repare no que ela contém: os oito oficiais são receita (três), captação (uma), o Form 990, o milhão de clientes, o Stargate e o pedido de abertura de capital. Nenhuma manchete nasce daí. As manchetes nascem das outras doze.


Receita: o que a OpenAI disse, o que vazou, o que é meta

A receita é o assunto em que as quatro naturezas mais se misturam numa frase só: "a OpenAI fatura 20 bilhões, vai fechar 2026 em 30 e mira 100 em 2027". Separadas, as três partes têm pesos diferentes.

Três blocos de barras horizontais com receita anualizada em bilhões de dólares. Bloco 1, azul, oficial, publicado pela OpenAI: 2023, 2; 2024, 6; 2025, mais de 20; março de 2026, 2 bilhões por mês, ou 24 anualizados. Bloco 2, cinza, estimativa de fora: julho de 2026, 40, segundo o painel vivo da Sacra lido em 26 de agosto. Bloco 3, âmbar, metas: 2026, 30; 2027, 100, dito em podcast; 2030, 280.A mesma linha de receita, em três naturezas: 24 é oficial, 40 é estimativa, 280 é metaUS$ bilhões anualizados — cada bloco com quem assinou; nunca some nem trace linha entre elesOFICIAL: A OPENAI PUBLICOU (US$ BILHÕES ANUALIZADOS)2023220246202520+mar/2026 (2 bi/mês)24ESTIMATIVA DE FORA (SACRA, PAINEL VIVO, LIDO EM 26/08/2026)jul/202640META: ALGUÉM DISSE QUE PRETENDEMeta 202630Meta 2027 (podcast)100Meta 2030280Fontes: OpenAI (CFO, jan/2026; post de 31/03/2026) · Sacra (26/08/2026) · The Information · BG2 · Bloomberg. ulissesflores.com/openai

Repare no bloco azul: é o que a empresa assinou, e é consistente. A CFO Sarah Friar escreveu no blog oficial, em janeiro de 2026, "$2B ARR in 2023, $6B in 2024, and $20B+ in 2025" ("US$ 2 bi de receita anualizada em 2023, 6 bi em 2024 e mais de 20 bi em 2025"). Em 31 de março, o post que anunciou a rodada de US$ 122 bi disse, em texto — li no HTML arquivado da própria página:

"Within a year of launching ChatGPT, we reached $1B in revenue. By the end of 2024 we were generating $1B per quarter. We are now generating $2B in revenue per month."

Em português: "Em um ano do lançamento do ChatGPT, chegamos a US$ 1 bi de receita. No fim de 2024 estávamos gerando US$ 1 bi por trimestre. Agora geramos US$ 2 bi de receita por mês."

Dois bilhões por mês são US$ 24 bi por ano — número oficial, datado, e o único do bloco que descreve o presente. A partir daí, tudo é de fora. O bloco cinza é a Sacra, uma consultoria que mantém um painel vivo sobre a empresa: em 26 de agosto ele dizia "OpenAI hit $40B in annualized revenue in July 2026" ("a OpenAI atingiu US$ 40 bi de receita anualizada em julho de 2026"). A página alemã cita a Sacra em "25 bi em fevereiro" — número que o painel já não mostra mais, porque a consultoria atualiza a estimativa e apaga a anterior. Estimativa de painel vivo tem de ser citada com a data da leitura, não com a data do número.

O bloco âmbar é intenção. "Meta de 2026: 29,4 bi" não existe em fonte nenhuma com essa casa decimal; o que a The Information publicou, a partir de documentos internos, é US$ 30 bi — o "29,4" só aparece em compilados que citam uns aos outros. "100 bi em 2027" é uma resposta de Altman ao investidor Brad Gerstner, no podcast BG2, em outubro de 2025: Gerstner sugeriu 2028 ou 2029 e Altman devolveu "How about '27?" ("Que tal 2027?"). A página alemã escreve "insinuado por Altman", o que está correto — e é exatamente o peso que uma frase de podcast tem. "280 bi em 2030" vem de documentos internos que a Bloomberg viu em fevereiro. Já contei aqui como os "900 milhões de usuários semanais" saíram do mesmo post de captação, sem nota metodológica: a receita oficial é a única linha desse post que vem com unidade e período.

Vinte e quatro é oficial, quarenta é estimativa, duzentos e oitenta é meta — e a frase que junta os três com o mesmo verbo está errada mesmo se cada número estiver certo.


Captação: as rodadas, e a diferença entre investir e prometer computação

A OpenAI é a empresa que mais levantou dinheiro privado na história, e os compilados costumam acertar a rodada e errar o acumulado — porque somam coisas de natureza diferente.

Linha do tempo com cinco pontos. Dezembro de 2015: 1 bilhão de dólares prometido na fundação. Julho de 2019: a Microsoft investe 1 bilhão. Janeiro de 2023: a Microsoft investe 10 bilhões. Outubro de 2024: rodada de 6,6 bilhões a um valor de 157 bilhões. Março de 2026, em destaque: rodada de 122 bilhões a um valor de 852 bilhões.De US$ 1 bi prometido a US$ 122 bi captados em uma rodadaAs rodadas que mudaram de escala, 2015-2026 (US$; valor da empresa depois da rodada)dez/20151 bi prometidojul/2019Microsoft: 1 bijan/2023Microsoft: 10 biout/20246,6 bi a 157 bimar/2026122 bi a 852 biFontes: CNBC (11/12/2025) · TechCrunch (02/10/2024) · OpenAI, post de 31/03/2026 (Wayback). ulissesflores.com/openai

Repare no primeiro ponto: o "US$ 1 bi" de 2015 foi um compromisso dos fundadores, e a CNBC apurou que só US$ 130 mi tinham entrado até 2019. Já o último ponto é oficial e sem ambiguidade: "$122 billion in committed capital at a post money valuation of $852 billion" ("US$ 122 bilhões em capital comprometido a um valor de US$ 852 bilhões depois da rodada"), no post de 31 de março de 2026 — a rodada anunciada em fevereiro como US$ 110 bi a US$ 730 bi "pré-dinheiro" (o valor antes de entrar o capital novo) fechou maior. Três meses depois, em maio, a Anthropic anunciou sua própria rodada a US$ 965 bi e passou à frente; a página alemã registra isso corretamente.

O erro está no acumulado por investidor.

Dois blocos de barras horizontais em bilhões de dólares. Bloco 1, azul, investimento em participação acumulado por investidor: SoftBank 64,6 até outubro de 2026, em destaque; Amazon 50, rodada de 2026; Nvidia 30, rodada de 2026; Microsoft 13, de 2019 a 2023. Bloco 2, cinza, compromissos de computação que não são investimento: Stargate 500, anunciado em janeiro de 2025; Amazon via AWS mais 100 em oito anos; Nvidia até 100, carta de intenção.SoftBank: 64,6 bi, não 'mais de 71' — e 500 bi de Stargate não é investimentoParticipação acumulada por investidor · e os compromissos de computação, que são outra coisaINVESTIMENTO EM PARTICIPAÇÃO, ACUMULADO POR INVESTIDOR (US$ BILHÕES)SoftBank (até out/26)64,6Amazon (2026)50Nvidia (2026)30Microsoft (2019-23)13COMPROMISSOS DE COMPUTAÇÃO — NÃO SÃO INVESTIMENTOStargate (jan/2025)500Amazon, AWS (+8 anos)100Nvidia (intenção)até 100Fontes: SoftBank Group (27/02/2026) · OpenAI, TechCrunch, Bloomberg (31/03/2026) · GeekWire · Fortune (02/12/2025). ulissesflores.com/openai

Repare na primeira barra. A página alemã diz que a SoftBank investiu "mais de US$ 71 bi". O comunicado da própria SoftBank, de 27 de fevereiro de 2026, diz:

"Upon completion of the Follow-on Investment, SBG's cumulative investment in OpenAI is expected to total USD 64.6 billion, representing an ownership interest of approximately 13%."

Em português: "Concluído o investimento adicional, o investimento acumulado do SBG na OpenAI deverá totalizar US$ 64,6 bilhões, representando uma participação de aproximadamente 13%."

São US$ 34,6 bi já investidos desde setembro de 2024 mais US$ 30 bi em três parcelas iguais ao longo de 2026 (abril, julho, outubro). Não achei "71" em fonte nenhuma, primária ou secundária; a Forbes, em junho, fala em "US$ 65 bi por 13%". E note que a barra da SoftBank já inclui dinheiro que, na data deste artigo, ainda não entrou — a parcela de outubro.

Agora o segundo bloco, que é de onde vêm os acumulados inflados. A Amazon investiu US$ 50 bi (US$ 35 bi condicionados a abertura de capital ou a um marco técnico; liberados em julho) — e, separadamente, ampliou em US$ 100 bi ao longo de oito anos um contrato de computação na AWS. A Nvidia investiu US$ 30 bi — e assinou, em setembro de 2025, uma carta de intenção de até US$ 100 bi "progressivamente, conforme cada gigawatt for instalado", que a própria CFO da Nvidia, Colette Kress, descreveu em novembro como "still haven't completed a definitive agreement" ("ainda não concluímos um acordo definitivo"). E o Stargate, os US$ 500 bi de data centers com SoftBank e Oracle, foi anunciado em 21 de janeiro de 2025 — a página diz 2026 — e é compromisso de infraestrutura, não capital na empresa. Somar 50 com 100, ou 30 com "até 100", dá um número que ninguém investiu. O acumulado histórico "de ~190 bi" que circula é uma soma de agregador: as fontes que tentam somar chegam entre 180 e 190,6 bi, dependendo de contar ou não vendas secundárias e linhas de crédito, e nenhuma delas é a OpenAI.

Uma última conferência, que é medição minha: busquei na base pública da SEC, a EDGAR, por registros da empresa. A busca por "openai" devolve 24 entidades — o fundo de investimento da própria OpenAI em startups, veículos de terceiros que empacotam ações dela para revenda e uma empresa de aviação de Illinois chamada Openairplane. Nenhum registro é da OpenAI operacional: 46 formulários Form D mencionam o nome, zero têm "OpenAI Global, LLC" como emissor. Isso não prova irregularidade — há estruturas legais que dispensam o registro no nome direto, e o pedido de abertura de capital de junho é sigiloso por lei até virar público. Prova outra coisa: para a empresa mais valiosa do setor, o único documento auditado disponível a qualquer pessoa é o formulário de imposto da fundação sem fins lucrativos que a controla. É a próxima seção.


O único documento auditado: o Form 990, e a história que ninguém cita

Toda organização sem fins lucrativos nos Estados Unidos entrega ao fisco um Form 990, e ele é público. A "OpenAI Inc" — a entidade original de 2015, que nos formulários de 2024 já se apresenta como openai.com/foundation — entrega o dela, e é dali que sai o único número auditado que circula sobre a empresa: "salário de Altman: US$ 76.001". Baixei os dois formulários mais recentes no ProPublica Nonprofit Explorer.

Dois blocos de barras horizontais em dólares. Bloco 1, ouro, Sam Altman: ano fiscal de 2023, 76.001, o número que circula; ano fiscal de 2024, 113.674, em destaque. Bloco 2, cinza, os mais remunerados no mesmo formulário de 2024: Greg Brockman, ex-presidente da fundação, 264.189; Chris Clark, tesoureiro e secretário, 216.021; Lawrence Summers, conselheiro, 143.702; Bret Taylor, presidente do conselho, 140.000.Altman: US$ 76.001 no ano que circula, US$ 113.674 no seguinte — e não é salárioForm 990 da OpenAI Inc (EIN 81-0861541), Parte VII, colunas E + F; a coluna paga pela fundação é zeroSAM ALTMAN — O NÚMERO QUE CIRCULA E O ANO SEGUINTE (US$)FY2023 (circula)76.001FY2024113.674OS MAIS REMUNERADOS NO MESMO FORM 990 DE FY2024 (US$)Greg Brockman (ex)264.189Chris Clark (tesour.)216.021Lawrence Summers143.702Bret Taylor (conselho)140.000Fonte: Form 990 FY2023 e FY2024, texto integral via ProPublica Nonprofit Explorer, lidos em 26/08/2026. ulissesflores.com/openai

Repare que o número confere ao centavo — e é a soma de duas colunas. Na Parte VII do formulário de 2023, a linha de Altman traz três valores: coluna D, "compensação da própria organização", 0; coluna E, "compensação de organizações relacionadas", 64.957; coluna F, "outra compensação estimada", 11.044. A fundação não paga nada a ele; a soma que circula como "salário" vem das entidades relacionadas — o braço comercial — e de benefícios estimados. O formulário de 2024, entregue em novembro de 2025 e que nenhum compilado cita, traz **0 + 65.638

  • 48.036 = US$ 113.674**, 49% a mais em um ano, quase tudo na coluna de "outra compensação". E o Schedule J do mesmo ano acrescenta, em texto, que três pessoas listadas participaram de "an equity-based compensation arrangement consisting of profits interest issued by a related organization" ("um arranjo de compensação baseado em participação, consistindo em profits interest [direito sobre lucros futuros] emitido por uma organização relacionada"), com valor de liquidação zero na concessão — ou seja, há remuneração que o número não captura.

O que ninguém cita fica no segundo bloco: no formulário de 2024, o CEO é o décimo de doze nomes da lista. Extraí a Parte VII inteira. Acima dele: Greg Brockman, listado como "Dir/Pres (Former)" ("diretor e presidente, ex"), US$ 264.189; Chris Clark, tesoureiro e secretário, US$ 216.021; Lawrence Summers, US$ 143.702; os conselheiros Adam D'Angelo, Susan Desmond-Hellmann e Bret Taylor, US$ 140.000 cada; Nicole Seligman e Fidji Simo, US$ 127.500; e Ilya Sutskever, já como "Director (Former)" ("diretor, ex"), US$ 119.538 — ele saiu em 2024 para fundar a SSI e ainda aparece recebendo de organização relacionada. Abaixo de Altman, só Paul Nakasone (US$ 99.030) e Zico Kolter (US$ 53.494). O formulário de 2023 tem outra curiosidade: uma linha "Emmett Shear — CEO — 40.00 [horas] — 3,720" — o CEO interino dos poucos dias de novembro de 2023, com US$ 3.720, é o registro público mais concreto que existe daquele episódio.

E a receita da fundação em si: US$ 5,36 mi em 2023, US$ 691 mil em 2024. Não é a receita da empresa — é a da entidade sem fins lucrativos, que arrecada cada vez menos diretamente enquanto os bilhões correm pela subsidiária. Comparar esse número com os "20 bi" é o erro inverso do "92%": a natureza é oficial e auditada, e o objeto é outro.

O Form 990 é o único número sobre a OpenAI que vem com assinatura de auditor — e todo compilado o cita errado no rótulo, no ano e no que ele mede.


Preços: o "Pro de US$ 100" que não existia e o plano que a página não viu

O preço é a estatística mais fácil de conferir e a que mais muda. A página alemã lista os planos do ChatGPT como "Free; Plus US$ 20; Pro US$ 100 ou 200" — e o "ou" já denuncia a confusão. Fui ao histórico.

Nas cópias arquivadas da página oficial de preços, de janeiro de 2024 a agosto de 2025, o Pro sempre custou US$ 200 por mês (o plano nem existia em janeiro de 2024; o Plus custava US$ 20, como hoje). Nunca houve "Pro de US$ 100" nesse intervalo. Na página ao vivo, lida no navegador em 26 de agosto de 2026, existem quatro planos individuais — Free, Go a US$ 8, Plus a US$ 20 e Pro "From $100" ("a partir de US$ 100") — e o Go, o plano intermediário lançado em 2025, não aparece na página alemã. A origem provável do "100 ou 200" é a aba de empresas, onde o assento "Premium" custa US$ 100 por mês no plano anual e US$ 125 no mensal. O preço mudou entre a última cópia arquivada e hoje, e o Wayback não tem nenhuma captura legível da página de preços da OpenAI desde 11 de junho de 2026: 39 tentativas do robô do Internet Archive, todas bloqueadas. O histórico público de preços da empresa mais citada do setor tem um buraco de dois meses e meio, aberto pela própria empresa.

Na API, o mesmo padrão: o modelo de ponta, GPT-5.6 Sol, aparece com preço promocional (US$ 4 por milhão de tokens de entrada, "antes US$ 5"; US$ 20 de saída, "antes US$ 30") válido "pelo menos até 21 de novembro de 2026" — e os irmãos Terra e Luna também baixaram desde o lançamento de julho, sem que a página marque a mudança. Um número de preço sem data é uma escolha editorial.


Brasil: preço em reais, escritório em São Paulo e um "50 milhões" reciclado

A OpenAI cobra em reais no Brasil — o real está na lista oficial de moedas com cobrança local, e o Pix é aceito para Go, Plus e Pro — mas a página de preços recusou esta máquina (erro 403) e o HTML arquivado resolve o valor em tempo real, sem expô-lo. O que dá para ler ao vivo é a loja de aplicativos, que a própria OpenAI diz refletir "sua moeda local".

Barras horizontais com o preço mensal em reais dos planos do ChatGPT na App Store do Brasil: Go 39,90, em destaque; Plus 99,90; Pro 5x 524,90; Pro 20x 999,90.ChatGPT no Brasil: de R$ 39,90 a R$ 999,90 por mês — na loja de aplicativosCompra dentro do app, App Store Brasil, lida ao vivo em 26/08/2026 (o site recusou a leitura)CHATGPT NO BRASIL — APP STORE, 26/08/2026 (R$ POR MÊS)GoR$ 39,90PlusR$ 99,90Pro (5x)R$ 524,90Pro (20x)R$ 999,90Fonte: apps.apple.com/br/app/chatgpt (26/08/2026); Go no site = R$ 39,99 (comunicado Nubank + OpenAI, 28/10/2025). ulissesflores.com/openai

Repare na primeira barra: o Go, a R$ 39,90 no app (R$ 39,99 no site, pelo comunicado conjunto com o Nubank de outubro de 2025, que deu até um ano grátis a clientes do banco), é o plano que a página alemã não lista e que só existe "num conjunto limitado de países", nas palavras da própria OpenAI. O Plus custa R$ 99,90 e o Pro se divide em dois níveis na loja — 5x e 20x de uso — que o site americano apresenta como um só, "a partir de US$ 100". Não converto moeda aqui: a loja arredonda para as faixas de preço da Apple, e uma taxa de câmbio escolhida por mim seria mais uma estatística sem assinatura.

O escritório em São Paulo é oficial em duas etapas: o anúncio de 28 de agosto de 2025 (Brad Lightcap, COO, à imprensa; antes disso a presença no país eram dois funcionários) e o lançamento formal das operações latino-americanas em 20 de agosto de 2026, num evento em São Paulo com parcerias anunciadas com Nubank, IMPA, Hospital das Clínicas da USP, ITA e Prodam. E aqui um número reciclado que merece a régua: "50 milhões de usuários mensais no Brasil" aparece idêntico na cobertura de agosto de 2025 e na de agosto de 2026 — enquanto "mensagens por dia" subiu de 140 milhões para 215 milhões no mesmo intervalo. Ou o Brasil não ganhou um usuário em um ano, ou o número é um arredondamento de material de imprensa que ninguém atualizou. Já mostrei aqui por que "50 milhões de brasileiros" também é o número do Cetic.br para quem já usou IA generativa — e essa é uma medição com amostra publicada, o que a outra não tem.

A OpenAI no Brasil tem preço em reais, escritório e parcerias — e o número de usuários que circula sobre o país tem a mesma idade nos dois lançamentos.


O que eu faria com isso

Uma pergunta, antes de repetir qualquer número sobre a OpenAI — ou sobre qualquer empresa fechada: quem assinou?

  1. Se a empresa assinou, confira a data. O "92%" é oficial e tem 31 meses. O "76.001" é auditado e é de 2023; o de 2024 dá 113.674. Oficial velho é a forma mais respeitável de estar errado.
  2. Se foi reportagem, cite a reportagem, não a empresa — e cite a data da leitura quando a fonte for um painel que se atualiza. A Sacra de fevereiro dizia 25; a de agosto diz 40.
  3. Se é meta, use o verbo certo: "projeta", "disse que pretende", "respondeu num podcast". Meta com casa decimal ("29,4") é sinal de que alguém copiou de alguém.
  4. Se a fonte citada não contém o número, o número não existe. Não é "aproximado", não é "estimativa": é órfão, e órfão não entra em texto.

E a regra dos acumulados: investimento em participação e compromisso de computação não se somam. Cinquenta mais cem não é cento e cinquenta; é cinquenta, e um contrato.

Se você quiser conferir a medição mais fácil deste artigo, são dez segundos:

curl -s -A "Mozilla/5.0" "https://projects.propublica.org/nonprofits/api/v2/organizations/810861541.json" \
  | python3 -c "import json,sys; d=json.load(sys.stdin); print(d['organization']['name'], [(f['tax_prd_yr'], f['totrevenue']) for f in d['filings_with_data'][:3]])"

É a "Openai Inc", EIN 81-0861541, com a receita da fundação por ano fiscal. O formulário de 2024 ainda não está no índice da API — está no texto integral, ObjectId 202513219349328476, e é lá que mora o 113.674. Se você achar o "2,2 bilhões de chamadas por dia" em qualquer documento da OpenAI, me mande: atualizo o artigo e credito a correção.


Fontes

Verificação: posts da OpenAI lidos em cópia arquivada ou no navegador; Form 990 FY2023 e FY2024 lidos no texto integral e preservados; base EDGAR consultada por API pública; comunicado da SoftBank e post da Anthropic lidos direto; Bloomberg, CNBC, FT, WSJ e The Information por republicação com atribuição, nomeada no texto. A página "Our structure" da OpenAI, que também afirma que Altman não tem participação, só existe no Wayback em capturas vazias — a linha fica apoiada na declaração à Reuters. A receita de US$ 13,1 bi em 2025 que aparece em documentos internos citados pela imprensa contradiz os "20 bi+" da CFO e provavelmente mede outra coisa (receita reconhecida × anualizada); não consegui resolver e o número fica fora. Não há Reddit nem X neste artigo, por indisponibilidade das fontes.