O número mais repetido sobre a OpenAI em 2026 — "92% das empresas da Fortune 500 usam nossos produtos" — tem 31 meses de idade e saiu de um post sobre um processo judicial. A frase está num texto de 8 de janeiro de 2024, a resposta da empresa à ação do New York Times; os compilados de estatísticas a penduram no anúncio de "1 milhão de clientes empresariais", de novembro de 2025, que não contém o número. Li os dois. A OpenAI nunca atualizou o percentual.
Fui atrás da procedência de cada estatística que circula sobre a empresa mais citada e menos documentada do setor. Classifiquei os 20 números centrais em quatro naturezas — oficial, reportagem, meta e órfão — e a régua reorganiza o assunto inteiro: só 8 são da OpenAI ou de registro público; 6 são apuração de imprensa; 3 são intenção; e 3 não têm origem localizável. O único documento auditado que existe sobre a empresa é um formulário de imposto da fundação original, e ele conta uma história que ninguém cita.
Nota metodológica. Cada número foi conferido contra a fonte original em 26 de agosto de 2026 — post oficial, comunicado de rodada, formulário Form 990 no IRS (via ProPublica), base EDGAR da SEC, página de preços — ou, quando a fonte é reportagem, contra a reportagem que o originou. O site da OpenAI recusa leitura automatizada (erro 403 em todas as páginas); o que vem de lá foi lido em cópia arquivada no Wayback Machine ou no navegador, e o texto diz qual. Três medições são minhas e reprodutíveis: os dois Form 990 da "OpenAI Inc" (FY2023 e FY2024), a busca por registros da empresa na SEC e o histórico da página de preços no Wayback. Usuários do ChatGPT ficam fora — já tratei deles aqui. Não há Reddit nem X; a discussão no Hacker News sobre esses números é rala e digo onde.
O placar: 20 números, quatro naturezas
O veredito antes do argumento, porque é o que circula sozinho. "O que circula" é a lista de números que compilados de estatísticas sobre a OpenAI repetem em 2026 — a página alemã que motivou esta pauta é o exemplar mais completo, com 76 afirmações numéricas. Peguei as 20 centrais. A coluna do meio é a régua.
| O número que circula | Natureza | Onde está a evidência |
|---|---|---|
| Receita anualizada acima de US$ 20 bi em 2025 | ✅ Oficial | CFO Sarah Friar, blog da OpenAI, 19-20/01/2026 |
| US$ 2 bi por mês (≈ 24 bi/ano), março de 2026 | ✅ Oficial | Post da OpenAI de 31/03/2026, lido no Wayback |
| US$ 122 bi captados a US$ 852 bi de valor | ✅ Oficial | Mesmo post |
| Remuneração de Altman: US$ 76.001 | ✅ Oficial | Form 990 FY2023 — é a soma de duas colunas, e o ano seguinte dá 113.674 |
| Mais de 1 milhão de clientes empresariais | ✅ Oficial | Post de 05/11/2025 |
| Stargate: US$ 500 bi | ✅ Oficial | Anúncio conjunto de 21/01/2025 (a página diz 2026) |
| Pedido de abertura de capital protocolado em sigilo | ✅ Oficial | Post da OpenAI, 08/06/2026 |
| Altman tem 0% das ações | ✅ Oficial | Declaração da OpenAI na reestruturação, reportada pela Reuters em 28/10/2025 ("OpenAI says CEO Altman will not get a stake") |
| Funcionários: ~4.500 -> 8.000 até o fim de 2026 | 📰 Reportagem | Financial Times, 21/03/2026 |
| Remuneração em ações: US$ 1,5 mi por funcionário; 46,2% da receita | 📰 Reportagem | Wall Street Journal, 18/02/2026 (a página atribui a outra fonte) |
| 600 mil clientes do ChatGPT Enterprise | 📰 Estimativa | Newsletter de fundo de venture capital; a OpenAI publica "7 milhões de assentos" |
| US$ 50 bi de computação em 2026 | 📰 Reportagem | Greg Brockman, sob juramento no processo Musk × OpenAI, 05/05/2026 |
| Patrimônio de Altman: US$ 3,3 bi | 📰 Estimativa | Forbes — composição: Stripe, Reddit, Helion (não Worldcoin) |
| SoftBank investiu "mais de US$ 71 bi" | 📰 Errado | Comunicado da própria SoftBank: US$ 64,6 bi, ~13% |
| Meta de receita 2026: US$ 29,4 bi | 🎯 Meta | Documentos internos via The Information: US$ 30 bi; a casa decimal não existe em fonte nenhuma |
| Meta de 2027: US$ 100 bi | 🎯 Meta | Altman, em podcast: "How about '27?" ("Que tal 2027?") |
| Meta de 2030: US$ 280 bi | 🎯 Meta | Documentos internos via Bloomberg, 20/02/2026 |
| 2,2 bilhões de chamadas de API por dia | ❓ Órfão | A fonte citada não contém o número; nenhuma outra o tem |
| 3.400 aplicativos de educação sobre a API | ❓ Órfão | Idem |
| 48% de participação em robôs de atendimento | ❓ Órfão | Idem |
Oito oficiais, seis de apuração, três metas, três órfãos. Repare no padrão: os números da própria OpenAI conferem — e são os menos interessantes. O que dá manchete (a meta, o vazamento, o "92%") é justamente o que a empresa nunca assinou.
A régua: quatro perguntas antes de repetir um número
Antes de acreditar em qualquer estatística sobre uma empresa fechada, uma pergunta separa o que o número prova do que ele só sugere: quem assinou? A figura é a régua inteira; o resto do artigo é a demonstração, número a número.
Repare que a régua não diz "oficial é verdade, o resto é mentira". Diz que cada caixa tem um peso: o oficial pode ser conferido na fonte, com data — e pode estar velho; a reportagem vale o que vale a apuração, e muda quando ela muda; a meta é intenção com prazo, não fato; e o órfão não tem peso nenhum, porque não há o que conferir. O erro dos compilados não é inventar número. É colocar as quatro caixas na mesma frase, com o mesmo verbo.
A página alemã é um bom caso justamente porque é melhor que a média: nomeia as fontes. O problema é o que sobra quando se puxa cada link.
Repare na proporção do primeiro bloco: 76 afirmações, 14 links. Bloomberg, Reuters, The Information, Financial Times, Sacra e o próprio IRS aparecem citados pelo nome, sem link — 7 atribuições que o leitor não tem como puxar. E repare na última barra do segundo bloco: dos 14 links, os 4 que abrem sem bloqueio (três da TechCrunch, um da Anthropic) sustentam exatamente o número citado; os bloqueados são a Bloomberg, a CNBC e a própria OpenAI, que recusam leitura automatizada. O único link que abre, é fonte oficial e mesmo assim não contém o número que pendura é o do "1 milhão de clientes" — de onde saem o "92%", as "2,2 bilhões de chamadas" e os três órfãos. Não é link morto nem fonte fraca: é uma citação tecnicamente presente que não passa no teste mais básico, abrir e ler.
O "92%": um número de 2024 sobre um processo, reciclado sem data
O post oficial de 5 de novembro de 2025, "1 million business customers: the fastest-growing business platform in history" ("1 milhão de clientes empresariais: a plataforma de negócios que mais cresce na história"), diz o que diz — e só isso:
"Today, we're announcing that more than 1 million business customers around the world are directly using OpenAI [...]. We now have more than 7 million total ChatGPT for Work seats (up 40% in just 2 months). ChatGPT Enterprise seats specifically have grown 9x year-over-year."
Em português: "Hoje anunciamos que mais de 1 milhão de clientes empresariais no mundo usam a OpenAI diretamente [...]. Temos agora mais de 7 milhões de assentos do ChatGPT for Work (alta de 40% em só 2 meses). Os assentos do ChatGPT Enterprise, especificamente, cresceram 9 vezes em um ano."
Li o texto inteiro, não por busca de palavra. Não há "92%", não há "Fortune 500", não há "460 empresas", não há gráfico comparando a OpenAI com Google, Microsoft e Anthropic, não há "600.000" organizações, "2,2 bilhões" de chamadas, "3.400" aplicativos nem "48%" de participação — os seis números que a página alemã lista sob o rótulo único "Source: OpenAI, 1 Million Businesses", ao lado de um gráfico que ela mesma assina.
O "92%" existe. Está num post de 8 de janeiro de 2024, intitulado "OpenAI and journalism" ("OpenAI e jornalismo"), que é a resposta da empresa ao processo do New York Times por direitos autorais:
"Millions of developers and more than 92% of Fortune 500 are building on our products today."
Em português: "Milhões de desenvolvedores e mais de 92% da Fortune 500 constroem sobre nossos produtos hoje."
"Hoje" era janeiro de 2024 — treze meses depois do lançamento do ChatGPT, num parágrafo de defesa jurídica. A OpenAI nunca republicou o percentual atualizado; o anúncio de novembro de 2025, que seria o lugar natural para isso, não o menciona. Todo texto que diz "92% da Fortune 500" citando a OpenAI em 2026 está usando um número de 31 meses atrás, de outro assunto, sem dizer a data. É a natureza "oficial" com prazo de validade vencido — e é por isso que ela fica fora dos 20 da tabela: não é órfã, é fóssil.
Os três órfãos são caso diferente. Procurei "2,2 bilhões de chamadas de API por dia" em cinco buscas dirigidas e não achei nenhuma publicação da OpenAI, consultoria ou reportagem com o número. O que existe, oficialmente, é outra métrica em outra unidade — "Our APIs now process more than 15 billion tokens per minute" ("nossas APIs processam agora mais de 15 bilhões de tokens por minuto", tokens sendo os pedaços de texto que o modelo lê e produz), no post de março de 2026. "3.400 aplicativos de educação" e "48% dos robôs de atendimento em tempo real" não aparecem em lugar nenhum fora de compilados que citam uns aos outros. Número com fonte que não o contém não é impreciso: é inexistente até prova em contrário.
Repare que a barra azul é a maior e ainda assim é minoria. E repare no que ela contém: os oito oficiais são receita (três), captação (uma), o Form 990, o milhão de clientes, o Stargate e o pedido de abertura de capital. Nenhuma manchete nasce daí. As manchetes nascem das outras doze.
Receita: o que a OpenAI disse, o que vazou, o que é meta
A receita é o assunto em que as quatro naturezas mais se misturam numa frase só: "a OpenAI fatura 20 bilhões, vai fechar 2026 em 30 e mira 100 em 2027". Separadas, as três partes têm pesos diferentes.
Repare no bloco azul: é o que a empresa assinou, e é consistente. A CFO Sarah Friar escreveu no blog oficial, em janeiro de 2026, "$2B ARR in 2023, $6B in 2024, and $20B+ in 2025" ("US$ 2 bi de receita anualizada em 2023, 6 bi em 2024 e mais de 20 bi em 2025"). Em 31 de março, o post que anunciou a rodada de US$ 122 bi disse, em texto — li no HTML arquivado da própria página:
"Within a year of launching ChatGPT, we reached $1B in revenue. By the end of 2024 we were generating $1B per quarter. We are now generating $2B in revenue per month."
Em português: "Em um ano do lançamento do ChatGPT, chegamos a US$ 1 bi de receita. No fim de 2024 estávamos gerando US$ 1 bi por trimestre. Agora geramos US$ 2 bi de receita por mês."
Dois bilhões por mês são US$ 24 bi por ano — número oficial, datado, e o único do bloco que descreve o presente. A partir daí, tudo é de fora. O bloco cinza é a Sacra, uma consultoria que mantém um painel vivo sobre a empresa: em 26 de agosto ele dizia "OpenAI hit $40B in annualized revenue in July 2026" ("a OpenAI atingiu US$ 40 bi de receita anualizada em julho de 2026"). A página alemã cita a Sacra em "25 bi em fevereiro" — número que o painel já não mostra mais, porque a consultoria atualiza a estimativa e apaga a anterior. Estimativa de painel vivo tem de ser citada com a data da leitura, não com a data do número.
O bloco âmbar é intenção. "Meta de 2026: 29,4 bi" não existe em fonte nenhuma com essa casa decimal; o que a The Information publicou, a partir de documentos internos, é US$ 30 bi — o "29,4" só aparece em compilados que citam uns aos outros. "100 bi em 2027" é uma resposta de Altman ao investidor Brad Gerstner, no podcast BG2, em outubro de 2025: Gerstner sugeriu 2028 ou 2029 e Altman devolveu "How about '27?" ("Que tal 2027?"). A página alemã escreve "insinuado por Altman", o que está correto — e é exatamente o peso que uma frase de podcast tem. "280 bi em 2030" vem de documentos internos que a Bloomberg viu em fevereiro. Já contei aqui como os "900 milhões de usuários semanais" saíram do mesmo post de captação, sem nota metodológica: a receita oficial é a única linha desse post que vem com unidade e período.
Vinte e quatro é oficial, quarenta é estimativa, duzentos e oitenta é meta — e a frase que junta os três com o mesmo verbo está errada mesmo se cada número estiver certo.
Captação: as rodadas, e a diferença entre investir e prometer computação
A OpenAI é a empresa que mais levantou dinheiro privado na história, e os compilados costumam acertar a rodada e errar o acumulado — porque somam coisas de natureza diferente.
Repare no primeiro ponto: o "US$ 1 bi" de 2015 foi um compromisso dos fundadores, e a CNBC apurou que só US$ 130 mi tinham entrado até 2019. Já o último ponto é oficial e sem ambiguidade: "$122 billion in committed capital at a post money valuation of $852 billion" ("US$ 122 bilhões em capital comprometido a um valor de US$ 852 bilhões depois da rodada"), no post de 31 de março de 2026 — a rodada anunciada em fevereiro como US$ 110 bi a US$ 730 bi "pré-dinheiro" (o valor antes de entrar o capital novo) fechou maior. Três meses depois, em maio, a Anthropic anunciou sua própria rodada a US$ 965 bi e passou à frente; a página alemã registra isso corretamente.
O erro está no acumulado por investidor.
Repare na primeira barra. A página alemã diz que a SoftBank investiu "mais de US$ 71 bi". O comunicado da própria SoftBank, de 27 de fevereiro de 2026, diz:
"Upon completion of the Follow-on Investment, SBG's cumulative investment in OpenAI is expected to total USD 64.6 billion, representing an ownership interest of approximately 13%."
Em português: "Concluído o investimento adicional, o investimento acumulado do SBG na OpenAI deverá totalizar US$ 64,6 bilhões, representando uma participação de aproximadamente 13%."
São US$ 34,6 bi já investidos desde setembro de 2024 mais US$ 30 bi em três parcelas iguais ao longo de 2026 (abril, julho, outubro). Não achei "71" em fonte nenhuma, primária ou secundária; a Forbes, em junho, fala em "US$ 65 bi por 13%". E note que a barra da SoftBank já inclui dinheiro que, na data deste artigo, ainda não entrou — a parcela de outubro.
Agora o segundo bloco, que é de onde vêm os acumulados inflados. A Amazon investiu US$ 50 bi (US$ 35 bi condicionados a abertura de capital ou a um marco técnico; liberados em julho) — e, separadamente, ampliou em US$ 100 bi ao longo de oito anos um contrato de computação na AWS. A Nvidia investiu US$ 30 bi — e assinou, em setembro de 2025, uma carta de intenção de até US$ 100 bi "progressivamente, conforme cada gigawatt for instalado", que a própria CFO da Nvidia, Colette Kress, descreveu em novembro como "still haven't completed a definitive agreement" ("ainda não concluímos um acordo definitivo"). E o Stargate, os US$ 500 bi de data centers com SoftBank e Oracle, foi anunciado em 21 de janeiro de 2025 — a página diz 2026 — e é compromisso de infraestrutura, não capital na empresa. Somar 50 com 100, ou 30 com "até 100", dá um número que ninguém investiu. O acumulado histórico "de ~190 bi" que circula é uma soma de agregador: as fontes que tentam somar chegam entre 180 e 190,6 bi, dependendo de contar ou não vendas secundárias e linhas de crédito, e nenhuma delas é a OpenAI.
Uma última conferência, que é medição minha: busquei na base pública da SEC, a EDGAR, por registros da empresa. A busca por "openai" devolve 24 entidades — o fundo de investimento da própria OpenAI em startups, veículos de terceiros que empacotam ações dela para revenda e uma empresa de aviação de Illinois chamada Openairplane. Nenhum registro é da OpenAI operacional: 46 formulários Form D mencionam o nome, zero têm "OpenAI Global, LLC" como emissor. Isso não prova irregularidade — há estruturas legais que dispensam o registro no nome direto, e o pedido de abertura de capital de junho é sigiloso por lei até virar público. Prova outra coisa: para a empresa mais valiosa do setor, o único documento auditado disponível a qualquer pessoa é o formulário de imposto da fundação sem fins lucrativos que a controla. É a próxima seção.
O único documento auditado: o Form 990, e a história que ninguém cita
Toda organização sem fins lucrativos nos Estados Unidos entrega ao fisco um Form 990, e ele é
público. A "OpenAI Inc" — a entidade original de 2015, que nos formulários de 2024 já se
apresenta como openai.com/foundation — entrega o dela, e é dali que sai o único número
auditado que circula sobre a empresa: "salário de Altman: US$ 76.001". Baixei os dois
formulários mais recentes no ProPublica Nonprofit Explorer.
Repare que o número confere ao centavo — e é a soma de duas colunas. Na Parte VII do formulário de 2023, a linha de Altman traz três valores: coluna D, "compensação da própria organização", 0; coluna E, "compensação de organizações relacionadas", 64.957; coluna F, "outra compensação estimada", 11.044. A fundação não paga nada a ele; a soma que circula como "salário" vem das entidades relacionadas — o braço comercial — e de benefícios estimados. O formulário de 2024, entregue em novembro de 2025 e que nenhum compilado cita, traz **0 + 65.638
- 48.036 = US$ 113.674**, 49% a mais em um ano, quase tudo na coluna de "outra compensação". E o Schedule J do mesmo ano acrescenta, em texto, que três pessoas listadas participaram de "an equity-based compensation arrangement consisting of profits interest issued by a related organization" ("um arranjo de compensação baseado em participação, consistindo em profits interest [direito sobre lucros futuros] emitido por uma organização relacionada"), com valor de liquidação zero na concessão — ou seja, há remuneração que o número não captura.
O que ninguém cita fica no segundo bloco: no formulário de 2024, o CEO é o décimo de doze nomes da lista. Extraí a Parte VII inteira. Acima dele: Greg Brockman, listado como "Dir/Pres (Former)" ("diretor e presidente, ex"), US$ 264.189; Chris Clark, tesoureiro e secretário, US$ 216.021; Lawrence Summers, US$ 143.702; os conselheiros Adam D'Angelo, Susan Desmond-Hellmann e Bret Taylor, US$ 140.000 cada; Nicole Seligman e Fidji Simo, US$ 127.500; e Ilya Sutskever, já como "Director (Former)" ("diretor, ex"), US$ 119.538 — ele saiu em 2024 para fundar a SSI e ainda aparece recebendo de organização relacionada. Abaixo de Altman, só Paul Nakasone (US$ 99.030) e Zico Kolter (US$ 53.494). O formulário de 2023 tem outra curiosidade: uma linha "Emmett Shear — CEO — 40.00 [horas] — 3,720" — o CEO interino dos poucos dias de novembro de 2023, com US$ 3.720, é o registro público mais concreto que existe daquele episódio.
E a receita da fundação em si: US$ 5,36 mi em 2023, US$ 691 mil em 2024. Não é a receita da empresa — é a da entidade sem fins lucrativos, que arrecada cada vez menos diretamente enquanto os bilhões correm pela subsidiária. Comparar esse número com os "20 bi" é o erro inverso do "92%": a natureza é oficial e auditada, e o objeto é outro.
O Form 990 é o único número sobre a OpenAI que vem com assinatura de auditor — e todo compilado o cita errado no rótulo, no ano e no que ele mede.
Preços: o "Pro de US$ 100" que não existia e o plano que a página não viu
O preço é a estatística mais fácil de conferir e a que mais muda. A página alemã lista os planos do ChatGPT como "Free; Plus US$ 20; Pro US$ 100 ou 200" — e o "ou" já denuncia a confusão. Fui ao histórico.
Nas cópias arquivadas da página oficial de preços, de janeiro de 2024 a agosto de 2025, o Pro sempre custou US$ 200 por mês (o plano nem existia em janeiro de 2024; o Plus custava US$ 20, como hoje). Nunca houve "Pro de US$ 100" nesse intervalo. Na página ao vivo, lida no navegador em 26 de agosto de 2026, existem quatro planos individuais — Free, Go a US$ 8, Plus a US$ 20 e Pro "From $100" ("a partir de US$ 100") — e o Go, o plano intermediário lançado em 2025, não aparece na página alemã. A origem provável do "100 ou 200" é a aba de empresas, onde o assento "Premium" custa US$ 100 por mês no plano anual e US$ 125 no mensal. O preço mudou entre a última cópia arquivada e hoje, e o Wayback não tem nenhuma captura legível da página de preços da OpenAI desde 11 de junho de 2026: 39 tentativas do robô do Internet Archive, todas bloqueadas. O histórico público de preços da empresa mais citada do setor tem um buraco de dois meses e meio, aberto pela própria empresa.
Na API, o mesmo padrão: o modelo de ponta, GPT-5.6 Sol, aparece com preço promocional (US$ 4 por milhão de tokens de entrada, "antes US$ 5"; US$ 20 de saída, "antes US$ 30") válido "pelo menos até 21 de novembro de 2026" — e os irmãos Terra e Luna também baixaram desde o lançamento de julho, sem que a página marque a mudança. Um número de preço sem data é uma escolha editorial.
Brasil: preço em reais, escritório em São Paulo e um "50 milhões" reciclado
A OpenAI cobra em reais no Brasil — o real está na lista oficial de moedas com cobrança local, e o Pix é aceito para Go, Plus e Pro — mas a página de preços recusou esta máquina (erro 403) e o HTML arquivado resolve o valor em tempo real, sem expô-lo. O que dá para ler ao vivo é a loja de aplicativos, que a própria OpenAI diz refletir "sua moeda local".
Repare na primeira barra: o Go, a R$ 39,90 no app (R$ 39,99 no site, pelo comunicado conjunto com o Nubank de outubro de 2025, que deu até um ano grátis a clientes do banco), é o plano que a página alemã não lista e que só existe "num conjunto limitado de países", nas palavras da própria OpenAI. O Plus custa R$ 99,90 e o Pro se divide em dois níveis na loja — 5x e 20x de uso — que o site americano apresenta como um só, "a partir de US$ 100". Não converto moeda aqui: a loja arredonda para as faixas de preço da Apple, e uma taxa de câmbio escolhida por mim seria mais uma estatística sem assinatura.
O escritório em São Paulo é oficial em duas etapas: o anúncio de 28 de agosto de 2025 (Brad Lightcap, COO, à imprensa; antes disso a presença no país eram dois funcionários) e o lançamento formal das operações latino-americanas em 20 de agosto de 2026, num evento em São Paulo com parcerias anunciadas com Nubank, IMPA, Hospital das Clínicas da USP, ITA e Prodam. E aqui um número reciclado que merece a régua: "50 milhões de usuários mensais no Brasil" aparece idêntico na cobertura de agosto de 2025 e na de agosto de 2026 — enquanto "mensagens por dia" subiu de 140 milhões para 215 milhões no mesmo intervalo. Ou o Brasil não ganhou um usuário em um ano, ou o número é um arredondamento de material de imprensa que ninguém atualizou. Já mostrei aqui por que "50 milhões de brasileiros" também é o número do Cetic.br para quem já usou IA generativa — e essa é uma medição com amostra publicada, o que a outra não tem.
A OpenAI no Brasil tem preço em reais, escritório e parcerias — e o número de usuários que circula sobre o país tem a mesma idade nos dois lançamentos.
O que eu faria com isso
Uma pergunta, antes de repetir qualquer número sobre a OpenAI — ou sobre qualquer empresa fechada: quem assinou?
- Se a empresa assinou, confira a data. O "92%" é oficial e tem 31 meses. O "76.001" é auditado e é de 2023; o de 2024 dá 113.674. Oficial velho é a forma mais respeitável de estar errado.
- Se foi reportagem, cite a reportagem, não a empresa — e cite a data da leitura quando a fonte for um painel que se atualiza. A Sacra de fevereiro dizia 25; a de agosto diz 40.
- Se é meta, use o verbo certo: "projeta", "disse que pretende", "respondeu num podcast". Meta com casa decimal ("29,4") é sinal de que alguém copiou de alguém.
- Se a fonte citada não contém o número, o número não existe. Não é "aproximado", não é "estimativa": é órfão, e órfão não entra em texto.
E a regra dos acumulados: investimento em participação e compromisso de computação não se somam. Cinquenta mais cem não é cento e cinquenta; é cinquenta, e um contrato.
Se você quiser conferir a medição mais fácil deste artigo, são dez segundos:
curl -s -A "Mozilla/5.0" "https://projects.propublica.org/nonprofits/api/v2/organizations/810861541.json" \
| python3 -c "import json,sys; d=json.load(sys.stdin); print(d['organization']['name'], [(f['tax_prd_yr'], f['totrevenue']) for f in d['filings_with_data'][:3]])"
É a "Openai Inc", EIN 81-0861541, com a receita da fundação por ano fiscal. O formulário de 2024 ainda não está no índice da API — está no texto integral, ObjectId 202513219349328476, e é lá que mora o 113.674. Se você achar o "2,2 bilhões de chamadas por dia" em qualquer documento da OpenAI, me mande: atualizo o artigo e credito a correção.
Fontes
- OpenAI — "OpenAI and journalism", 08/01/2024 — a origem do "92% da Fortune 500"; lido em cópia do Wayback (02/05/2024)
- OpenAI — "1 million business customers", 05/11/2025 — lido no navegador (o site devolve 403 a leitura automatizada)
- OpenAI — "OpenAI raises $122 billion to accelerate the next phase of AI", 31/03/2026 — lido em cópia do Wayback (02/04/2026); TechCrunch, 31/03/2026
- Sherwood — CFO Sarah Friar, "$20B+ in 2025", 19-20/01/2026 — espelho do post oficial
- Sacra — OpenAI — painel vivo, lido em 26/08/2026
- The Information — "OpenAI Boosts Revenue Forecasts, Predicts $111 Billion More Cash Burn Through 2030" (paywall; números por espelhos) e briefing sobre os "100 bi em 2027"
- Bloomberg — "OpenAI Forecasts Its Revenue Will Top $280 Billion in 2030", 20/02/2026 (403; por espelhos)
- SoftBank Group — comunicado de 27/02/2026 — US$ 64,6 bi, ~13%; Forbes, 08/06/2026
- TechCrunch — rodada de US$ 6,6 bi a US$ 157 bi, 02/10/2024; CNBC — a fundação em 2015 e os US$ 130 mi, 11/12/2025 (403; por espelho)
- GeekWire — Amazon: US$ 50 bi de participação e US$ 100 bi de AWS; Fortune — CFO da Nvidia: acordo "não definitivo", 02/12/2025
- Anthropic — Series H, 28/05/2026 — US$ 65 bi a US$ 965 bi
- ProPublica Nonprofit Explorer — Openai Inc, EIN 81-0861541 — Form 990 FY2023 e FY2024, texto integral
- SEC EDGAR — busca por empresa "openai" e busca em texto integral por Form D (efts.sec.gov) — 46 registros de terceiros, 0 da OpenAI Global, LLC
- Reuters — Altman sem participação, 28/10/2025 · Financial Times — quadro de pessoal, 21/03/2026 · Wall Street Journal — remuneração em ações, 18/02/2026 — paywall; citados por republicação com atribuição
- Preços: página de preços do ChatGPT e de empresas lidas no navegador em 26/08/2026; histórico via Wayback CDX (
openai.com/api/pricing,openai.com/chatgpt/pricing, 2021-2026); Help Center — cobrança em moeda local e ChatGPT Go (Wayback) - App Store Brasil — ChatGPT — preços em reais, lidos ao vivo; Nubank + OpenAI — ChatGPT Go no Brasil, 28/10/2025 (Wayback)
- CNN Brasil — escritório no Brasil, 28/08/2025; Gazeta Brasil — operações na América Latina, 20/08/2026; OpenAI Global Affairs — "Brazil's AI moment is here", 04/11/2025 (Wayback)
- Página que motivou a pauta — gradually.ai, "OpenAI-Statistiken 2026" — inspiração de estrutura; nenhum número reaproveitado sem conferência
Verificação: posts da OpenAI lidos em cópia arquivada ou no navegador; Form 990 FY2023 e FY2024 lidos no texto integral e preservados; base EDGAR consultada por API pública; comunicado da SoftBank e post da Anthropic lidos direto; Bloomberg, CNBC, FT, WSJ e The Information por republicação com atribuição, nomeada no texto. A página "Our structure" da OpenAI, que também afirma que Altman não tem participação, só existe no Wayback em capturas vazias — a linha fica apoiada na declaração à Reuters. A receita de US$ 13,1 bi em 2025 que aparece em documentos internos citados pela imprensa contradiz os "20 bi+" da CFO e provavelmente mede outra coisa (receita reconhecida × anualizada); não consegui resolver e o número fica fora. Não há Reddit nem X neste artigo, por indisponibilidade das fontes.
