A DeepSeek tirou o V4-Flash do beta em 31 de julho com o codinome V4-Flash-0731, e a manchete que circulou foi uma só: o modelo barato da casa agora bate o flagship V4-Pro em todos os nove benchmarks agênticos publicados. É verdade — e não é a parte interessante.
Fui ao model card oficial. A tabela de onde saiu a manchete tem duas colunas que a cobertura não menciona, e numa delas o Claude Opus 4.8 vence o V4-Flash-0731 nas nove linhas. De nove a zero, publicado pela própria DeepSeek. O que uma empresa ganha anunciando a própria derrota é a pergunta certa deste lançamento — e a resposta está no preço.
O que mudou de fato
Os fatos verificáveis, do model card oficial e da tabela de preços da API:
| Item | V4-Flash-0731 |
|---|---|
| O que é | o preview de abril re-pós-treinado — arquitetura intocada |
| Parâmetros | 284B totais (304B com o módulo DSpark) · 13B ativos por token |
| Contexto | 1 milhão de tokens · saída de até 384 mil em esforço high/max |
| Níveis de esforço | low · high · max (três, não cinco) |
| Preço | US$ 0,14 por milhão de tokens de entrada · US$ 0,28 na saída |
| Cache hit | US$ 0,0028 — desconto de 98% sobre a entrada |
| Licença | MIT, pesos abertos, sem gate de acesso |
| Disponibilidade | Hugging Face + API em beta público |
A frase decisiva do anúncio é a que menos chama atenção: os ganhos vêm de "re-post-training, not a new design". Mesma arquitetura, mesmo endpoint, mesmo preço, mesma latência — trocaram só a etapa final de treino. Guarde essa frase; ela volta adiante.
Os detalhes operacionais que valem dinheiro
Quatro itens que só aparecem lendo a documentação, no espírito de sempre:
- O desconto de cache é o produto escondido. 98% de desconto no prefixo cacheado (a prática da indústria gira em torno de 90%). Agente de longa duração com prompt de sistema estável paga quase só a saída.
- Preço de pico foi anunciado, sem data. A documentação avisa que a API vai adotar tarifa dupla — o dobro nos horários 9h–12h e 14h–18h de Pequim. Quem for rodar batch barato já sabe em que fuso agendar.
- A Responses API só cobre o Flash. O formato compatível com Codex funciona hoje
apenas no
deepseek-v4-flash; o Pro está prometido para o começo de agosto. - O V4-Pro não foi atualizado. Nem os modelos do site e do app. O lançamento é só o Flash — o que torna a tabela abaixo mais estranha ainda.
A tabela íntegra
A tabela do model card, completa — com as duas colunas que a manchete pulou:
| Benchmark | Flash-0731 | Flash (abril) | Pro (abril) | GLM-5.2 | Opus 4.8 |
|---|---|---|---|---|---|
| Terminal Bench 2.1 | 82,7 | 61,8 | 72,1 | 81,0 | 85,0 |
| NL2Repo | 54,2 | 39,4 | 38,5 | 48,9 | 69,7 |
| Cybergym | 76,7 | 38,7 | 52,7 | — | 83,1 |
| DeepSWE | 54,4 | 7,3 | 12,8 | 46,2 | 58,0 |
| Toolathlon-Verified | 70,3 | 49,7 | 55,9 | 59,9 | 76,2 |
| Agents' Last Exam | 25,2 | 15,8 | 16,5 | 23,8 | 25,7 |
| AutomationBench Public | 25,1 | 10,8 | 12,8 | 12,9 | 27,2 |
| DSBench-FullStack | 68,7 | 37,0 | 41,8 | 61,8 | 71,6 |
| DSBench-Hard | 59,6 | 25,8 | 31,1 | 54,5 | 71,7 |
Duas leituras, em ordem de espanto.
A coluna do próprio Flash de abril. No DeepSWE, o preview marcava 7,3; o 0731 marca 54,4 — sete vezes e meia, sem tocar um parâmetro de arquitetura. No Cybergym, de 38,7 para 76,7. Se esses números se sustentarem fora do harness da casa, é a demonstração mais agressiva até aqui de que a receita de pós-treino passou a valer mais que o design do modelo — o custo de alcançar um concorrente caiu de "treinar outro modelo" para "re-treinar a etapa final do que você já tem".
A coluna do Opus 4.8. Vence as nove linhas. A DeepSeek escolheu publicar isso — não num apêndice, na tabela principal do card. Não é descuido; é o argumento de venda lido de trás para a frente, e ele só funciona por causa da seção seguinte.
Nota metodológica — leia antes de citar esta tabela. Os benchmarks agênticos rodaram no "minimal mode" do DeepSeek Harness, que não foi publicado, com
temperature 1.0e esforçomax. Até o harness sair, nenhum desses números é reproduzível de forma independente. E cuidado ao cruzar anúncios: o "AutomationBench Public" desta tabela dá 27,2 ao Opus 4.8, enquanto a tabela do anúncio do Opus 5, uma semana antes, dava 17,0 ao mesmo modelo no "AutomationBench" — subconjunto e harness diferentes, número incomparável. O mesmo vale para o DeepSWE (aqui sem sufixo de versão; lá, "v1.1"). Benchmark de fabricante só se compara dentro do próprio anúncio.
Perder de 9 a 0 custando um oitenta e nove avos
A conta que a tabela não mostra: o Opus 4.8 custa US$ 5 de entrada e US$ 25 de saída por milhão de tokens — os mesmos preços do Opus 5, verificados no artigo sobre o lançamento dele. O V4-Flash-0731 custa US$ 0,14 e US$ 0,28. Trinta e seis vezes menos na entrada; oitenta e nove vezes menos na saída. A distância média na tabela é de um dígito percentual por linha.
E aqui entra o teste de terceiros que o artigo do Opus 5 terminou pedindo — desta vez ele chegou no dia do lançamento. A Artificial Analysis mediu o 0731 em 50 no Intelligence Index. O contexto dos vizinhos: GPT-5.6 Luna e GLM-5.2 em 51, Gemini 3.6 Flash em 50, Kimi K3 em 57, Claude Opus 5 em 61 — e o V4-Pro da própria DeepSeek em 44, seis pontos abaixo do modelo barato da casa.
O salto vertical do gráfico é o lançamento inteiro: dez pontos de índice no mesmo preço, a linha subindo sem andar para a direita. A Artificial Analysis estima o custo por tarefa do 0731 em cerca de 60% menos que o do GPT-5.6 Luna para a mesma faixa de inteligência — efeito menos do preço de tabela e mais do desconto de cache de 98%.
É por isso que publicar a derrota de 9 a 0 funciona como propaganda: a tabela não afirma "somos os melhores"; afirma "estamos a poucos pontos de quem cobra 89 vezes mais". Para a fatia de mercado que decide por custo por tarefa concluída — agentes rodando milhões de tokens por dia — o segundo argumento é o mais forte. Com a ressalva de sempre: quem mede a distância de "poucos pontos" é o harness não publicado da própria DeepSeek; a versão independente, por ora, é só o índice agregado da AA.
O que este índice não diz. O Intelligence Index é uma média agregada — não mede o seu caso de uso, e a AA ainda não publicou a decomposição agêntica do 0731. Os 11 pontos entre ele e o Opus 5 podem ser irrelevantes para autocomplete e decisivos para um agente que opera um terminal por horas. As duas coisas cabem no mesmo número.
O pós-treino virou o produto
O detalhe técnico com consequência estratégica: um salto de 7,3 para 54,4 num benchmark de engenharia de software sem arquitetura nova significa que a fronteira agêntica está, no momento, menos limitada pelo tamanho do modelo e mais pela qualidade do pipeline de pós-treino — dados de trajetória de agente, RL sobre uso de ferramenta, harness de avaliação. Arquitetura se publica em paper; receita de pós-treino é o segredo industrial da vez. A DeepSeek abriu os pesos e guardou a receita — MIT para o artefato, silêncio sobre o método que o produziu. É open-weights, não open-science, e a distinção nunca foi tão visível.
No mesmo pacote vem o DSpark, o módulo de decodificação especulativa descrito num paper próprio: 60% a 85% mais rápido por usuário, medido em tráfego real do sistema de serving da DeepSeek — não em bancada. A ressalva do próprio paper: o ganho vale a throughput casado, sob as restrições de interatividade da produção deles; o seu deploy local não herda o número automaticamente.
As primeiras 48 horas fora do harness
O lançamento tem dois públicos, e eles mediram coisas diferentes.
O eixo local celebrou o que dá para pesar. Os pesos oficiais rodando em dois DGX Spark a 82 tok/s de pico (60–72 típico) com o contexto de 1M; numa RTX 5090 com 192 GB de RAM a 12 tok/s — "não é nível de fronteira... mas muito bom em código funcional"; e o refrão de que qualquer Mac de 128 GB agora roda "coding nível Opus" localmente. Do lado da API, um usuário somou a conta do dia: 110 milhões de tokens processados, US$ 0,77.
O eixo cético mirou exatamente onde a nota metodológica acima aponta. O comentário mais votado (+385) da thread principal do r/LocalLLaMA começa com a ressalva inteira em itálico: "*in benchmarks". Um dev resumiu o problema estrutural: "evaluate model + harness, not weights" — avalie modelo mais harness, não pesos. Outro, depois de várias rodadas num harness independente, viu qualidade "extremamente inconsistente" e classificou o primeiro resultado bom como "rodada de sorte". E houve medição de regressão: melhor em geração de HTML, pior que o preview em JSON e raciocínio, throughput sustentado 7% menor. Houve também quem chamasse a tabela de cherry-picking — acusação que a coluna do Opus 4.8, publicada pela própria DeepSeek, responde por si.
E a própria Artificial Analysis complicou o próprio número. No índice AA-Omniscience, a empresa reportou que a acurácia do 0731 ficou inalterada em 37%; o que caiu 11 pontos foi a taxa de alucinação. Parte do salto de 10 pontos no índice agregado, portanto, não é o modelo sabendo mais — é o modelo inventando menos. Para agente autônomo essa é, talvez, a melhoria mais valiosa do pacote; só não é a que a manchete sugere.
MIT, sem gate, num MacBook de 128 GB
O terceiro eixo do lançamento não tem benchmark: os pesos estão no Hugging Face sob MIT, sem cadastro. Com 13B ativos por token, a build de 3 bits roda em cerca de 110 GB de RAM+VRAM combinadas — dentro de um MacBook de 128 GB; a de 8 bits pede 162 GB. Um modelo que disputa a faixa dos 50 pontos da AA, capaz de operar como agente, rodando inteiro na máquina local, é um teto novo para a categoria "não depende de API de ninguém" — com o teto de sempre: velocidade de estação de trabalho, não de datacenter.
O que eu faria com isso
Não testei o 0731 em produção — saiu há dois dias. Onde eu olharia primeiro:
Medir custo por tarefa, não por token. A lição do gráfico: preço de tabela 89 vezes menor só vira 89 vezes menos custo se a taxa de conclusão de tarefa acompanhar. O teste honesto é o seu backlog de tarefas reais, o mesmo prompt, os dois modelos, custo por tarefa concluída — e o harness deles não publicado é mais um motivo para medir com o seu.
Desenhar o agente em torno do cache. 98% de desconto no prefixo muda a arquitetura ótima: prompt de sistema longo e estável passa a ser quase grátis; o que custa é variar o prefixo. Vale reordenar o que é fixo e o que é dinâmico no seu prompt antes de comparar preço com qualquer concorrente.
Agendar batch fora do pico de Pequim. A tarifa dupla anunciada dobra o custo em janelas conhecidas (9h–12h e 14h–18h, horário da China). Pipeline noturno brasileiro cai fora do pico — de graça.
E não cruzar tabelas de anúncios. O mesmo Opus 4.8 marca 27,2 num anúncio e 17,0 no outro, no "mesmo" benchmark. Qualquer comparação que você monte colando números de posts diferentes está errada por construção. A régua que vale é a que você mesmo segura.
Fontes
- Model card oficial: huggingface.co/deepseek-ai/DeepSeek-V4-Flash-0731
- Preços: api-docs.deepseek.com/quick_start/pricing
- Paper do DSpark: arxiv.org/abs/2607.05147 · Relatório técnico do V4: arxiv.org/abs/2606.19348
- Índice independente: officechai.com — V4-Flash-0731 na Artificial Analysis
- Cobertura: MarkTechPost · TechTimes · XenoSpectrum
Preços e specs conferidos na documentação oficial da DeepSeek em 01/08/2026; a tabela de benchmarks foi transcrita do model card no Hugging Face; os valores do gráfico vêm do índice público da Artificial Analysis e das tabelas de preço oficiais — o ponto do preview de abril (≈40) é derivado do ganho de 10 pontos noticiado, não de medição direta. As citações de comunidade foram colhidas em 01/08/2026 via busca em X e Reddit e transcritas dos posts originais, com link em cada uma; a contagem de votos é a do momento da colheita. O preço do Opus 4.8/5 (US$ 5 de entrada, US$ 25 de saída) foi reconferido em 01/08/2026 contra a página oficial de preços da Anthropic.